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terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Demência" de Célia Correia Loureiro [Opinião]


Tive oportunidade de ler o Demência graças à iniciativa Demência... on the Road!, organizada pela Silvéria (The Fond Reader) e pela Cristina (Linked Books). Elas propuseram-se a deixar o Demência percorrer o país, de casa em casa, de um leitor para outro, para que esta história pudesse chegar a mais leitores.

E foi assim que esta edição da Coolbooks chegou até mim. Obrigada Silvéria e Cristina por este generoso empréstimo!

Em 2013, já tinha lido o Demência pela primeira vez, na edição da Alfarroba, cuja opinião pode ser lida aqui. Seis anos depois voltei a mergulhar nesta história, da qual já pouco me lembrava. Talvez por este motivo, foi como se estivesse a descobrir este livro pela primeira vez.

No início, custou-me um pouco a entrar no espírito do livro, mas esse é um problema que tenho tido com quase todos os livros atualmente. Ao fim de alguns dias, a leitura começou a avançar a um ritmo bem melhor e dei por mim agarrada à história. Embora o livro não seja muito rápido em ação, consegue prender-nos, transportar-nos para dentro destas páginas.


Demência foi publicado pela primeira vez em 2011, contudo continua a ser um livro muito atual, uma vez que retrata os temas da violência doméstica e da demência. Todos os dias ouvimos na televisão histórias de mulheres que morrem às mãos dos maridos ou dos ex-companheiros, por isso é impossível olhar para esses números, conhecer os casos e permanecer indiferente.

A história de Letícia é bastante dramática e, neste livro, conhecemos a sua vida depois de tudo ter acontecido. Ela ainda se encontra muito fragilizada pelo que vivenciou e o facto de regressar à aldeia onde vive a sua sogra não vai atenuar as suas dificuldades.

Este livro fez-me sentir revoltada e angustiada. Como pode uma mulher ser tão criticada porque se defendeu do marido que lhe batia? Como é que ainda se defende tanto um agressor? Embora esta história se passe num ambiente rural, acredito que muita desta mentalidade ainda está presente na nossa sociedade nos dias de hoje.

A escrita da Célia é única e cuidada e os seus livros merecem absolutamente serem lidos. Vou terminar com o que escrevi há seis anos na minha opinião: esta é uma história sobre amor incondicional e sobrevivência, sobre amizade e perdão, sobre coragem e fé nas segundas oportunidades. 


Por fim, nesta foto pode ver-se o Log Book que foi feito especialmente para os leitores que estão a participar nesta iniciativa. O caderninho é da autoria da Mafalda Fernandes, do Nuts for Paper. Aqui ficam os links para o seu blogue e instagram. Vão visitar os trabalhos dela!

Classificação: 4/5 estrelas

quarta-feira, 1 de maio de 2019

"O Segredo da Cascata dos Murmúrios" de Ana Nunes [Opinião]


Este é o segundo livro da coleção 4 Quadrantes, da autora Ana Nunes, publicada pela Coolbooks.

Os nossos 5 amigos vão passar férias à pequena aldeia de Pitões das Júnias, situada no concelho de Montalegre, norte de Portugal. Julgavam eles que iriam ter uma férias pacatas, num local onde não acontece nada, mas bem que se enganaram. É neste belo local que vão viver mais uma aventura.

Gosto imenso do facto de a autora aproveitar para dar a conhecer aos jovens locais do nosso país que podem não ser do conhecimento de todos. Confesso que fiquei agradada com as descrições dadas pela autora e, mais tarde, dei comigo a pesquisar no google imagens da bela cascata e das paisagens que esta pequena aldeia tem para oferecer. Acho que deve ser um local maravilhoso para visitar, para todos aqueles que adoram estar em contacto com a natureza.


A par disso, somos ainda brindados com costumes e festas locais, com linguagem típica e até com lendas. A capa do livro é lindíssima e ilustra na perfeição a lenda do duende e a cascata.

É um livro que certamente cativará os mais jovens por conjugar uma linguagem acessível para a sua idade com as novas tecnologias, nomeadamente as redes sociais.

Apenas achei que o final, a resolução do mistério, foi semelhante ao do livro anterior e que a autora poderia ter apostado em algo diferente. Mas, apesar disso, foi uma leitura leve e que gostei de conhecer.

Classificação: 3/5 estrelas

segunda-feira, 25 de março de 2019

"O Enigma do Castelo Assombrado" de Ana Nunes [Opinião]


O Enigma do Castelo Assombrado é o primeiro volume da coleção Os 4 Quadrantes, que está a ser publicada pela Coolbooks.
O livro faz-me lembrar as coleções Uma Aventura e Triângulo Jota que eu adorei ler na minha juventude.

Comprei-o para oferecer a uma menina e não resisti a lê-lo primeiro. O seu formato pequeno e a linda capa fazem dele um livro amoroso e cativante.

Neste primeiro volume, temos o primeiro contacto com os nossos protagonistas - Ema, Lucas, Vicente, Constança, e o amigo de quatro patas, Sam - e assistimos à forma como eles se conheceram e se viram no meio da sua primeira investigação.


É um livro que muito facilmente cativará o público mais jovem e em especial aqueles que conhecem Sesimbra, o local onde se passa a ação.

A escrita de Ana Nunes é simples e cuidada, com bastantes apontamentos de humor, imprimindo leveza a esta leitura, que é o que se quer, tendo em conta o público-alvo a quem se dirige o livro.

Outro aspeto interessante é a introdução das novas tecnologias, algo que nos dias de hoje está muito presente na vida dos jovens e que mais facilmente os ajudará a sentirem-se cativados para a leitura.

No geral, foi um livro que me permitiu descontrair e que gostei de conhecer. Fiquei com vontade de ler os livros seguintes da coleção, também já publicados, e espero fazê-lo em breve.

Classificação: 3/5 estrelas

segunda-feira, 4 de março de 2019

"Regras para Descolagem" de Carolina Paiva [Opinião]


Sentia algum entusiasmo por ir conhecer uma nova autora portuguesa, a Carolina Paiva, que, antes de ser publicada, já era conhecida na blogosfera (embora eu nunca me tivesse cruzado com o seu blogue).

Contudo, há opiniões um pouco ingratas de escrever e esta é uma delas. Sei que a escrita implica muito trabalho e dedicação, muita frustração e luta, e creio que qualquer escritor gosta de ouvir críticas positivas ao seu trabalho e de saber que os leitores desfrutaram realmente do que leram.

A minha relação com este livro, infelizmente, não foi das melhores. Não sei se terá sido por tê-lo lido a seguir a uma leitura muito boa, talvez estivesse ainda um pouco ressacada e não consegui entrar nesta história tão bem como desejava.

Em Regras para Descolagem conhecemos Lourenço, um detetive privado que está a trabalhar naquele que decidiu ser o seu último caso. É durante um voo, com a ajuda de um companheiro de viagem, que ele irá passar por um período de reflexão, procurando resolver o seu passado.


A escrita da Carolina é muito clara e cuidada, um ponto a seu favor e que nem sempre se encontra na primeira obra de um autor. Foi o aspeto que mais me agradou no livro.

Não gostei muito do registo em que a história nos foi contada. A maior parte da narrativa centrou-se nos pensamentos do Lourenço e nas suas reflexões e arrependimentos acerca da sua vida. Foi muito contar e não mostrar e, dessa forma, não consegui sentir-me cativada. Certamente a história teria resultado bem melhor se tivesse um registo um pouco diferente.

Não tive dificuldades com os recuos e avanços no tempo, consegui sempre situar-me bem. Compreendo que muitos leitores necessitem que o tempo esteja bem delimitado, mas a forma como a autora estruturou a história a nível temporal funcionou comigo.

Por outro lado, senti dificuldades nos diálogos. Achei-os pouco claros, com pouca expressividade e, com frequência, dava comigo perdida, sem saber quem estava a falar e a ter de voltar atrás para ler novamente. Creio que fazia falta trabalhar um pouco mais os diálogos, de forma a colmatar estas pequenas faltas.

Gostava de tecer comentários mais positivos a este livro, no entanto, a minha experiência com esta leitura deixou-me um pouco desiludida e acho importante ser sincera.

Espero que a autora continue a escrever, a aperfeiçoar os seus trabalhos e que em breve possa presentear os seus leitores com outra história da sua autoria, quem sabe até num registo diferente.

Classificação: 1/5 estrelas

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

"As Impertinências do Cupido" de Ana Gil Campos [Opinião]


As Impertinências do Cupido é o mais recente trabalho de Ana Gil Campos, publicado em 2017 pela Coolbooks.
Desta autora, já tinha lido o seu primeiro livro, A Segunda Pele da Acácia Mimosa, e tenho em casa, ainda por ler, Quando Ruiu a Ponte Sobre o Tamisa.

Este pequeno livro apresenta-nos diversos contos de personagens que vivem em Itaim Bibi, um bairro nobre de São Paulo, e cujas vidas acabam por se entrelaçar.

São contos subordinados à temática das relações amorosas nos dias de hoje, em que as personagens passam por diversas reflexões. Temos os solteiros, incapazes de acreditar que vão encontrar o verdadeiro amor, os recém-casados, que subitamente sentem dúvidas acerca do seu casamento, os que já têm filhos e se sentem insatisfeitos e pouco amados, os que traem e são traídos, e os que se apaixonam fugazmente.

A particularidade mais interessante deste livro é que as pequenas histórias estão escritas de forma a caricaturar as relações amorosas atuais, o que torna a leitura muito divertida. Eu comecei a ler e, pouco depois, já estava a rir às gargalhadas de tão caricatas que eram as situações.
Um dos contos que mais me fez rir foi «Chilrear do azulejo», que retrata a forma como muitas pessoas vivem as relações mais para mostrar nas redes sociais do que para desfrutar da intimidade em si.
Também adorei o conto «Pé de moleque», sobre um homem que desenvolveu uma espécie de paixão obsessiva por uma mulher e então interpretava todas as pequenas ações dela de forma completamente errada.


No geral, é um bom livro para descontrair durante um par de horas, onde também somos presenteados com uma escrita agradável e que foi evoluindo ao longo do tempo. É um livro perfeito para uma tarde na piscina ou na praia, para ir lendo entre mergulhos. Recomendo!

Classificação: 3/5 estrelas

sábado, 28 de outubro de 2017

"Maresia e Fortuna" de Andreia Ferreira [Opinião]


Antes de mais, quero agradecer à autora o convite que me fez para ler este seu mais recente trabalho. Já conhecia a trilogia Soberba, mas ainda não tinha tido oportunidade de ler nenhum dos livros, pelo que Maresia e Fortuna foi a minha estreia com a autora Andreia Ferreira.

A história deste livro decorre maioritariamente em Apúlia, uma vila pertencente a Esposende, aqui no norte, muito pertinho de onde eu vivo. Já visitei Apúlia algumas vezes, embora nunca tenha ido à praia tão falada neste livro. As descrições da Andreia provocam no leitor uma enorme vontade de partirem à descoberta destes locais.

A narrativa inicia-se devagar, mas rapidamente nos dá a conhecer as diversas personagens, todas com as qualidades, defeitos e medos, o que as torna mais humanas e mais realistas. Eduardo, Bianca e Vanessa são jovens como tantos outros, com vontade de aproveitar o verão. Contudo, a vida de Eduardo vai mudar quando conhece Júlia, uma mulher misteriosa, mais velha e atraente, e que vai despertar nele uma confusão de sentimentos.

Por sua vez, Júlia está na vila com intenção de descobrir finalmente o que aconteceu no seu passado, naquele terrível dia em que perdeu tudo.

Ainda conhecemos Simão, irmão de Eduardo, que se refugia na bebida para afogar as mágoas do passado, embora dê bastante importância à educação do irmão e às suas escolhas de vida. Adelaide, a mãe de ambos, é uma senhora com quem simpatizei logo, e que também esconde os seus segredos.

Sem dúvida que Júlia foi a personagem que mais despertou a minha atenção. À medida que ia progredindo na leitura, a minha curiosidade ia crescendo. O que teria acontecido de tão grave no passado de Júlia? Seria ela realmente louca ou andariam todos a mentir-lhe?
Gostei da evolução que a autora deu a esta personagem, mais para o fim do livro sentia-se ali uma aura de loucura nos seus pensamentos e ações, e senti que conseguia imaginar perfeitamente aquela personagem com a loucura no olhar.

O final foi muito poderoso e surpreendeu-me completamente. Houve um momento, a meio da leitura, que cheguei a desconfiar da revelação final, mas depois achei que não podia ser, que era algo demasiado macabro, e por isso esqueci a ideia. Mas aconteceu mesmo isso, e foi uma surpresa que me deixou de tal forma boquiaberta que tive de ler compulsivamente as páginas finais do livro.

Gostei muito e devo mesmo dizer que a autora está de parabéns. Embora não conheça os seus trabalhos anteriores, não posso fazer uma comparação, mas posso afirmar que a autora conseguiu trabalhar bastante bem esta história e dar-lhe um tom negro e dramático, que cada vez mais aprecio nos livros.

Uma autora portuguesa que merece ser lida. Não tenham medo de apostar na literatura portuguesa, que precisa urgentemente de ser mais valorizada.

Classificação: 4/5 estrelas

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

"A Chama ao Vento" de Carla M. Soares [Opinião]


A Chama ao Vento é o segundo trabalho de Carla M. Soares que tenho oportunidade de ler. A autora já conta com quatro trabalhos publicados, dos quais li Alma Rebelde, em 2012.

Ultimamente, tenho-me aventurado a ler mais e-books (sabem que eu tenho uma relação difícil com e-books; por muito prático que seja ler um livro em formato digital, que não ocupa espaço nenhum, continuo a acreditar que não oferecem aquele prazer único de folhear as suas páginas, de senti-lo nas nossas mãos). Assim, decidi ler A Chama ao Vento, que só está publicado em formato e-book, e seria uma pena não o ler por causa disso.

O livro inicia-se com um prólogo enigmático, em que o corpo de um desconhecido é atirado ao mar, de um hidroavião que sobrevoa o Atlântico.

Seguidamente, é-nos apresentado Francisco, um homem atraído a uma casa onde viveu na infância, antes de ser abandonado pela mãe e deixado aos cuidados da avó, uma senhora calma e completamente apagada de vida.
Francisco não está preparado para enfrentar o passado mas tudo muda quando é abordado por João Lopes, um senhor de idade que se dispõe a contar-lhe a história da avó Carmo.

Assim, Francisco e nós leitores, somos transportados para uma Lisboa do século XX, que acolhe todo o tipo de estrangeiros que fogem da 2ª Guerra Mundial em busca de um refúgio seguro noutro lugar.

Confesso que início do livro estava a ser de mais difícil leitura devido à personalidade de Francisco, aos seus medos em descortinar o passado e a toda a insegurança por estar a perder o controlo de si próprio.

A história da avó Carmo cativou-me de imediato e rapidamente me senti agarrada e curiosa por descobrir o que transformara aquela jovem apaixonada e cheia de vida na idosa apática e apagada que Francisco sempre conhecera.

A narrativa está bem estruturada, alterna entre passado e presente e caracteriza bem a época histórica, sem se tornar exaustivo, dado que não se trata de um romance histórico.

A autora escreve muito bem e esse é um dos aspetos positivos do livro. A escrita é cuidada, bem trabalhada e madura. Há apenas algumas gralhas ao longo do livro, mas nada de preocupante, nem capaz de interferir na leitura. Talvez precisasse de mais revisão, de ser lido por outros olhos que detetam mais facilmente estas falhas do que o próprio autor.

Em conclusão, é uma história deliciosamente bem escrita e de uma autora que merece ser lida. Mesmo que não sejam apreciadores de e-books, não descartem a possibilidade de ler este livro. Prometo que ficarão surpreendidos e com curiosidade de explorar outras obras da autora.

Classificação: 4/5 estrelas

quinta-feira, 13 de julho de 2017

"O Escultor" de Carina Rosa [Opinião]


O Escultor é o mais recente trabalho da autora Carina Rosa e que tive oportunidade de ler graças à Silvana, que me emprestou o livro.

Sentia-me muito curiosa por se tratar de um livro diferente do estilo habitual da autora.
Apesar deste livro ter sido divulgado como policial, penso que se encaixa melhor no género de suspense ou suspense romântico. Existe investigação policial, mas é tratada de forma bastante superficial, com pouco mais do que inquéritos e buscas a residências. Além disso, a investigação é levada a cabo quase exclusivamente pelo inspetor André.

O que existe mais ao longo do livro é suspense, até porque o assassino é rapidamente identificado e, a partir deste momento, o leitor concentra o seu interesse em descobrir como será o confronte final entre o assassino, as vítimas e a polícia.

Relativamente às personagens, gostei imenso da forma como as personalidades de Mariana e Alice contrastavam. Mariana era fria, rígida e com a sua vida planeada ao pormenor, enquanto a amiga era extrovertida e sempre com desejo de se divertir, desfrutando ao máximo da vida e da sua independência. Gostei muito de ver como a amizade de ambas de tornou tão especial, apesar das suas diferenças.
Pedro foi uma personagem que me cativou desde o início porém, de um momento para o outro, ficou louco e extremamente possessivo e ciumento. Penso que algo não correu bem nesta transição, foi muito repentina, quase como se estivéssemos perante duas personagens diferentes.
André, o inspetor, não me cativou totalmente, embora compreenda que alguns aspetos que o caracterizam - como andar sempre mal-humorado, ser mais frio e desapegado - se devem ao seu trabalho, ao facto de ter em mãos um caso complicado e também devido ao seu passado tortuoso.
Por fim, o Escultor é uma personagem extremamente repugnante e foi bastante interessante aceder à sua mente doentia, testemunhar as suas ações e perceber o que o levava a agir. Ele recebeu uma caracterização muito boa e completa por parte da autora.

No geral, é uma leitura cativante, com boas doses de mistério e um capítulo inicial arrepiante e que fomenta a curiosidade do leitor.
O final é intenso, embora a forma como a polícia atuou me tenha deixado bastante irritada. Os últimos capítulo também são demasiado românticos, mas creio que já faz parte do estilo da autora querer dar um final amoroso às suas personagens.

Uma leitura interessante para quem deseje apostar na literatura nacional e conhecer uma autora que tem vindo a evoluir a cada novo trabalho!

Classificação: 3/5 estrelas

terça-feira, 30 de maio de 2017

"A Sombra de um Passado" de Carina Rosa [Opinião]


Este romance foi-me emprestado pela Silvana, que muito gentilmente me deu a oportunidade de ler mais um romance da autora Carina Rosa.

A vida parece correr bem a Clara e Santiago, enquanto constroem a casa dos seus sonhos para viverem com a filha Carolina.
Mas o passado, que nem sempre fica resolvido, está à espreita e prepara-se para abalar a relação do casal. Hugo, ex-namorado de Clara, saiu em liberdade após 10 anos na prisão e quer vingança por Clara o ter abandonado. Está também disposto a tudo para ter Clara de volta.
O reencontro com Hugo traz a Clara as recordações de um passado  que pensou ter esquecido, bem como as inseguranças e o desejo que aquele amor doentio provocou nela quando era uma jovem ingénua e inexperiente.

Tenho lido todos os trabalhos de Carina Rosa (exceto O Escultor, o seu mais recente romance) e tem sido muito bom acompanhar a evolução na escrita da autora, tanto a nível da estrutura e organização da narrativa como também a nível gramatical e da construção frásica.

As personagens são interessantes e credíveis, têm as suas dúvidas, medos e inseguranças como qualquer pessoa. São personagens que poderiam ser reais.
No caso de Clara, nota-se que ainda não ultrapassou completamente o passado, ainda tem sentimentos de culpa que, inevitavelmente,  vão interferir na sua relação atual. Não achei correto que ela não tivesse contado a Santiago o seu passado. Numa relação é fundamental que exista confiança e, neste caso, Clara teve medo que Santiago não compreendesse (quando ele sempre fez tudo por ela) e isso acabou por trazer desentendimentos entre o casal.

Este romance tem uma componente mais dura, mais misteriosa e perigosa. Aborda bastante bem as consequências de um amor doentio, adicionado a uma vida criminosa. Assim, o livro apresenta momentos de perigo, dado que Hugo é um homem perigoso, com uma visão errada do amor e também perturbado pelo seu próprio passado. Não diria que Hugo seja o vilão da história, porque não é; é um homem que também teve os seus azares na vida e nunca aprendeu a demonstrar os seus sentimentos.

O final deu-me a entender que poderia acontecer algo mais dramático, porém acabou por se resolver de forma mais fácil. Já não é a primeira vez que um livro da autora me dá esta ideia; talvez seja porque a autora constrói um clímax bastante sombrio que tem tudo para correr mal para as personagens, e depois acaba de forma completamente diferente.

No geral, foi uma leitura bastante boa, que conjugou o romance com alguns momentos de suspense e perigo. Recomendo a leitura a quem gostar destes ingredientes, a quem apreciar histórias em que o passado tem um papel importante. Não deixem de dar uma oportunidade à literatura portuguesa!

Classificação: 3/5 estrelas