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sábado, 29 de dezembro de 2018

"Às Cegas" de Josh Malerman [Opinião]


Não sei porque demorei tanto a ler este livro. Interessei-me por ele assim que foi publicado em Portugal, consegui adquiri-lo mais tarde através de uma troca, mas depois acabei por guardá-lo na estante. Só quando vi que o filme estava prestes a estrear na Netflix é que me decidi, por fim, e lê-lo.

E foi uma leitura incrível, que devorei em apenas três tardes e que me devolveu a vontade de ler durante horas.

Às Cegas apresenta-nos um mundo pós-apocalíptico onde uma espécie de epidemia fez com que as pessoas enlouquecessem e se matassem umas às outras. Havia teorias que diziam que a loucura começava quando as pessoas viam algo. Desta forma, os sobreviventes viviam em casas com as janelas tapadas, as portas trancadas e só iam à rua de olhos vendados.

A narrativa vai alternando entre o presente - altura em que Malorie sai da sua casa segura com os dois filhos, em busca de um refúgio melhor -  e o passado - depois da epidemia se ter alastrado e onde vemos como é a vida dos que tentam sobreviver.

Embora tenha gostado de ambas as linhas da narrativa, apreciei um pouco mais a do passado. O que posso salientar é que algo é comum a todo o livro: a mestria de brincar com o terror psicológico, a forma como o autor provoca sensações quase palpáveis, que deixam o leitor verdadeiramente inquieto. Por momentos, é como se nós também estivéssemos lá, juntamente com as personagens, de olhos igualmente vendados e impossibilitados de olhar para o que nos rodeava.

Não é que o livro tenha propriamente cenas chocantes ou violentas, quase tudo isso é sugerido ao leitor, o que pode tornar-se ainda mais assustador. E talvez tenha sido por isso que achei a leitura tão viciante!


No nosso dia a dia, se calhar nem pensamos tanto em como a visão é importante. Confesso que achei quase surreal como as personagens faziam quase tudo de olhos vendados. É verdade que muitas pessoas invisuais são capazes de ter uma vida praticamente normal, contudo, neste livro, há ainda a componente medo. As personagens não podem abrir os olhos porque, se os abrirem, será tarde demais...

A audição adquire então um papel muito importante dado que, sem visão, é a audição o sentido que nos guia. Malorie treinou os filhos para ouvir e são eles que a ajudam quando se mete num barco com eles para atravessar um rio.

Quero salientar que, embora tenha achado o livro excelente, fiquei com pena de não nos ter sido explicado como tudo começou e o que provocava exatamente a loucura nas pessoas. Talvez tenha sido deixado assim para que cada leitor tentasse imaginar...
O final também acabou por ser muito calmo, o que desiludiu um pouco depois de uma leitura tão intensa. Esperava mais, embora isso não tenha comprometido o meu sentimento global em relação ao livro.

Foi, sem dúvida, um dos melhores livros que li este ano e não posso deixar de o recomendar, principalmente aos fãs de terror. Este é um género que comecei recentemente a explorar e já me sinto fã e desejosa de descobrir novas obras e autores.
Quanto a Josh Malerman, espero que continue a ser publicado em Portugal. Esta é a sua obra de estreia, o que revela que estamos perante um escritor verdadeiramente promissor.

Classificação: 5/5 estrelas

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

"Tudo Isto Existe" de João Ventura [Opinião]


Tudo Isto Existe é uma coletânea de ficção curta de João Ventura. O livro foi apresentado no passado mês de outubro, durante o evento Fórum Fantástico.

A capa da autoria de Inês Pedro Borges é cativante e desperta o olhar. A edição interior do livro é igualmente simples e bem organizada, convidando o leitor a perder-se por entre estas páginas.

Tal como foi mencionado na sessão de lançamento, este livro pode comparar-se a uma refeição requintada.
A primeira parte apresenta-nos alguns contos muito curtos, que seriam as entradas, que pretendem começar por familiarizar o leitor com a escrita cuidada e, muitas vezes humorística, do autor. Aqui, destaco como meus preferidos: "As vírgulas perdidas de Saramago" e "A Guerra das Cores".

Seguidamente, na nossa analogia, surgem os pratos principais, um conjuntos de contos mais longos, que se estendem desde a fantasia à ficção científica. Posso destacar "A tertúlia dos que não viajam", "A Lagoa" e, o meu preferido de todos, "Leituras", que nos apresenta um mundo futurista onde os livros em papel são raros.


Por fim, encontramos as Fábulas Académicas - contos que podem ter sido inspirados na carreira académica do autor - e ainda as Hiper-curtas - pequenas ideias com sentido que culminam numa leitura leve e de grande satisfação.

Tive oportunidade de ler este livro antes de estar publicado e, mais tarde, já em papel, e das duas vezes me senti cativada pela escrita, imaginação e criatividade do autor. Alguns dos contos serão certamente do agrado dos fãs mais acérrimos de ficção científica.

Podem ainda encontrar um conto do autor na antologia O Resto é Paisagem.

Classificação: 4/5 estrelas

sábado, 22 de dezembro de 2018

"À Conquista do Teu Coração" de Anna Bell [Opinião]


Este livro chegou-me às mãos numa altura em que eu estava mesmo a precisar de uma leitura leve e divertida. Tinha acabado de ler um livro que me provocou uma das maiores ressacas literárias que já tive, estava a trabalhar na revisão de um livro ainda mais complicado e, por isso, precisava de uma leitura que exigisse pouco de mim.

À Conquista do Teu Coração veio a revelar-se uma verdadeira lufada de ar fresco.

Abi é a personagem central da história. Quando o namorado acaba com ela, deixa-a mergulhada num poço de tristeza. Um dia, encontra uma lista com desafios que ele gostaria de fazer antes dos 40 anos e decide que, se se mostrar corajosa e realizar cada um desses desafios, conseguirá surpreendê-lo e reconquistá-lo.

É assim que inicia uma viagem com diferentes aventuras que vão exigir toda a sua determinação. Durante esse tempo, recebe a ajuda e encorajamento dos amigos, enquanto cresce e se transforma numa nova pessoa.


Mais importante do que conquistar estes desafios é que Abi vai melhorar a sua autoestima e aprender a conhecer-se melhor. De certa forma, este livro mostra-nos como é importante seguimos as nossas próprias escolhas. Se queremos fazer alguma mudança, devemos fazê-la apenas por nós próprios e não para agradar a alguém.

Ver Abi a conseguir todas estas conquistas deixou-me também com vontade de criar uma lista de objetivos para mim e certamente muitos leitores sentirão a mesma vontade.

Gostei muito da Sian, a melhor amiga de Abi, adorei o Ben e nunca simpatizei com o Joseph. Mais para o final, as atitudes dele eram realmente estúpidas, demonstrando que nunca gostara verdadeiramente de Abi.

No geral, foi um livro extremamente divertido, que me fez rir em todo o lado. Está repleto de situações caricatas e cumpre na perfeição a sua função de entreter o leitor. Recomendo e sem dúvida que gostaria de ler mais romances da autora.

Classificação: 3/5 estrelas

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

"Misery" de Stephen King [Opinião]


Quis ler este livro todo de uma vez. E, por outro lado, quis poupá-lo para que durasse o máximo de tempo possível. Acabou por ganhar a segunda opção.
Demorei duas semanas a ler este livro e foram duas semanas de verdadeiro prazer... e terror!

Bastou-me ler a sinopse para perceber que a premissa deste livro é excelente. Tinha todos os ingredientes para ser bom. Apesar da minha primeira experiência com Stephen King não ter sido espetacular, achei que devia dar-lhe outra oportunidade. Com tantas obras à disposição e sendo ele um nome incontornável dentro do género terror, certamente eu iria encontrar um livro que me agradasse. Só não esperava que fosse tão rápido!

Misery conta a história de um autor que se tornou famoso pela personagem dos seus romances cor-de-rosa. Um dia, decide matá-la. Pouco tempo depois, sofre um grave acidente e é socorrido por Annie, uma ex-enfermeira, que por acaso é também a sua maior fã e está furiosa com a morte de Misery.

Este livro retrata aquele que deve ser o pior pesadelo de um escritor: ter um fã doentiamente obcecado pelo seu trabalho.

O que mais me impressionou, logo para começar, foi o facto de que praticamente toda a ação do livro se passa no mesmo local. Acredito que serão poucos os autores que conseguem fazer isto e mesmo assim apresentar um livro tão dinâmico como este.


Se quando li A Luz senti alguns períodos de aborrecimento e dificuldade em prosseguir a leitura, neste livro isso não aconteceu. Antes pelo contrário, senti-me presa desde as primeiras páginas. E este livro já me permitiu encontrar o inegável talento de King.

As personagens estão muito bem construídas, especialmente Annie, dado que o leitor consegue sentir o mesmo medo que Paul à medida que vai compreendendo que está refém de uma louca. Quando Paul se porta mal, Annie sente que tem de o castigar. Porém, quando esses castigos começam a tornar-se mais intensos, o próprio leitor quer fechar os olhos, parar de ler, tudo para não descobrir de que é que Annie é capaz. Não imaginam as vezes que eu implorei para que ela não lhe fizesse mal.

Este livro é tão claustrofóbico que se torna aflitivo para o leitor; mesmo assim, é ainda mais doloroso parar de ler.

Houve duas cenas que me surpreenderam muito. A primeira ocorre mesmo no fim da primeira parte e é uma cena super simples que o autor prolongou por mais de dez páginas, o que me deixou completamente agarrada. A segunda ocorre no final da segunda parte e é uma das coisas mais tenebrosas que já li. Foi como se eu estivesse lá a assistir a tudo.

Por fim, gostava ainda de referir um aspeto que me agradou imenso: encontrei, neste livro, uma referência ao livro A Luz e sei que existem referências de Misery no livro O Retrato de Rose Madder (que vai ser uma das minhas próximas leituras). Segundo o que andei a investigar, parece que o autor faz isto com frequência: mencionar nos seus livros personagens ou eventos de outros livros. Acho fantástico quando um escritor faz isto e gosto ainda mais de ser capaz de as encontrar.

Como conclusão, posso afirmar que Misery foi, sem dúvida, um dos melhores livros que li este ano; talvez possa até arriscar dizer que foi mesmo o melhor do ano. Por isso, é uma leitura absolutamente recomendada para os fãs do género!

Classificação: 5/5 estrelas

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

"Cada Suspiro Teu" de Nicholas Sparks [Opinião]


Quem lê com frequência o meu blogue, sabe que tenho um grande carinho pelas obras de Nicholas Sparks. Como sempre, fiquei muito curiosa quando soube do lançamento do seu novo romance, desta vez inspirado numa história verídica.

Adoro a capa que a editora utilizou, bastante semelhante à original e bem diferente das capas demasiado cinematográficas dos outros livros do autor. Sempre gostei muito mais de capas sóbrias.

Cada Suspiro Teu conta-nos a história de Tru Walls, guia de safaris no Zimbabué, e Hope Andersen, nascida e criada na Carolina do Norte. Tru prepara-se para encontrar o pai que nunca conheceu e Hope está a viver um momento difícil. O destino junta-os numa praia - Sunset Beach - e a magia acaba por acontecer.

O facto de saber que este romance era inspirado numa história verídica fez-me acreditar que seria daqueles de chorar baba e ranho e possivelmente com um final não muito feliz, como por vezes o autor nos tem oferecido. Por isso, iniciei a leitura, preparando-me para isso.


A primeira metade do livro é, na verdade, muito semelhante a outros romances do autor, em que as personagens se conhecem e uma química começa a nascer entre eles. Contudo, neste romance tudo acontece bastante depressa, o que pode deixar de pé atrás os leitores mais céticos. Se a história não estiver bem construída, poderá ser difícil acreditar que eles se apaixonam em apenas um dia e meio.

O mais doloroso para mim foi a escolha que ambos tiveram de fazer, o que os levou a uma separação dilacerante. Mas a história não acabou aí e praticamente passei a metade restante do livro mergulhada em lágrimas.

A história não teve o final que eu esperava e estou grata por isso, por o autor nos ter mostrado que, por vezes, o destino tem mesmo uma voz, e que a esperança existe sempre até ao fim.

Quero destacar um pormenor interessantíssimo, que é a caixa de correio Alma Gémea, que o autor descreve na sua nota inicial, e cujo papel é fundamental ao longo do livro.
Há ainda uma nota final do autor, onde ele nos explica um pouco mais acerca destas personagens, o que conferiu mais riqueza à sua narrativa.

Apesar de não se ter tornado um dos meus livros preferidos do autor, é uma história de amor que vale a pena conhecer e que dará ao leitor algumas horas de leitura prazerosa, embora pautada por algumas lágrimas!

Classificação: 4/5 estrelas

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Antologia | "O Resto é Paisagem" de Vários Autores [Opinião]


Já aqui vos tinha apresentado a Antologia de Fantasia Rural O Resto é Paisagem, na qual tive o prazer de ver um conto de minha autoria ser publicado. Foi uma satisfação enorme estar no meio de tantos autores, alguns com bastante mais experiência do que eu em escrita.

Li todos os outros contos e, como leitora, também formei uma opinião de todos eles e fiquei com os meus preferidos.
Partilho então aqui a minha opinião a cada um dos contos desta Antologia, excetuando o meu, cuja opinião deixarei para os leitores!

"Rogos e Mitos" de Inês Montenegro (4*)
Um conto que aborda a temática dos incêndios e da devastação que ele causa às populações e aos locais por onde passa. A autora utiliza uma linguagem que aproxima o leitor do ambiente e das gentes da aldeia. Desta forma, sentimo-nos próximos, como se estivéssemos mesmo lá a assistir aos acontecimentos e à angústia sentida pelas pessoas neste momento de aflição indescritível. O final maquiavélico, e onde encontramos o elemento de fantasia, deixou-me com um sorriso perverso nos lábios. Gostei muito!

"O Prego no Portão" de João Ventura (4*)
Três amigos, estudantes de Direito, vão passar uns dias à aldeia onde vivem os avós de um deles. Durante as pausas ao estudo, aproveitam para conhecer a aldeia e algumas histórias populares que correm de boca em boca. Uma delas é a história do Prego no Portão, um acontecimento trágico que aconteceu, anos antes, na aldeia.
Gostei do conto, João Ventura é um bom contador de histórias e senti-me cativada desde o início. Contudo, esperava algo um bocadinho mais assustador, tendo em conta a temática que o autor introduziu. Senti, também, que o final foi um pouco abrupto, tendo-me deixado com vontade de mais.

"O Poço" de Simão Cortês (5*)
Esta narrativa super cativante dá-nos a conhecer Marta, uma pré-adolescente que se considera uma colecionadora de histórias do paranormal, na Pampilhosa da Serra. Corajosa e aventureira, não tem medo da noite e adora os mistérios e as criaturas que ela esconde. Quando o seu amigo Cláudio é encontrado morto, num poço abandonado, Marta decide que tem de investigar. Mas será que está preparada para o horror que irá encontrar?
Um conto assustador, capaz de nos provocar um arrepio na espinha, e que não consegui parar de ler até à última palavra. Bem escrito e com descrições muito bem conseguidas, este conto é uma delícia para os amantes de terror. Preciso de ler mais trabalhos deste autor! Um dos meus contos preferidos da antologia.

"O Espírito do Vento" de Lívia Borges (4*)
Roberto é o filho do moleiro. Vive na ilha de Porto Santo, gosta de números e ambiciona por uma vida melhor que não inclua trabalhar num moinho. Um dia, com um amigo, descobre uma misteriosa caixa, que guarda consigo, na esperança de ser capaz de descobrir o que ela esconde. Contudo, só muitos anos mais tarde é que o segredo será revelado ao neto de Roberto.
Gostei particularmente da escrita da autora, convidativa e agradável, e que mantém o interesse do leitor até ao final. Achei, contudo, alguns dos últimos diálogos pouco naturais em pessoas adultas, mas talvez tenha apenas sentido a falta de algumas descrições dos comportamentos e sentimentos das personagens ao longo das falas. Vale a pena ler!


"A Última Missa" de Raquel Cal (3*)
O Padre Figueiroa chega a uma nova paróquia e, enquanto se instala, começa a aperceber-se de coisas cada vez mais estranhas que acontecem naquela igreja.
Confesso que, quando, nas primeiras linhas, percebi que a personagem deste conto seria um padre, o meu pensamento resvalou de imediato para exorcismos. Porém, não foi esse o tema escolhido pela autora. Posso dizer que o conto tem algum suspense que mantém o leitor preso a cada palavra, ansioso por descobrir a razão daqueles estranhos acontecimentos. Senti necessidade de mais algumas explicações e o final acabou por não ter o impacto que eu desejava, talvez porque estivesse a imaginar algo diferente. Apesar de tudo, é uma agradável leitura!

"Chegou ao seu Destino" de Rui Ramos (3*)
Estranho. Esta é a palavra que define a minha primeira sensação com este conto. Um homem perdido no meio de uma estrada, com o telemóvel e o automóvel avariados. Por momentos, tive medo que o autor entrasse nalgum sítio comum, mas acabei por ser surpreendida. Após ultrapassar a antipatia inicial que senti pelo personagem, acabei por ficar muito curiosa e agradada com a criatividade do autor. Acompanhamos o personagem numa viagem repleta de perigos e de criaturas fantásticas, até ao seu derradeiro destino. Será que conseguirá lá chegar? Vale a pena descobrir!

"Já Não se Pode Ter um Bixo" de Carlos Alberto Espergueiro (3*)
Este é o conto mais pequeno da antologia. E é pela voz do Sr. Salustiano Casimiro que ficamos a conhecer uns estranhos bixos que ele encontra num estranho buraco no chão. Quem serão eles? E de onde virão? Um conto extremamente bem-humorado que nos apresenta um personagem sem papas na língua. Só fiquei com pena por o conto ser tão curto; queria ler mais! Recomendo!

"A Solidão é um Deus Negro" de Ricardo Correia (5*)
Cecília deixou de sorrir no dia em que perdeu o seu amado, Manuel, doze anos antes. Mas Cecília deixou também de sentir o que quer que fosse dentro do seu peito e o seu luto deu origem a um buraco negro, um vazio que se estendia a toda a aldeia.
Achei este conto muito interessante e precisei de o ler mais de uma vez para ser capaz de fazer a minha interpretação. Devo dizer que a escrita é belíssima e merece que cada palavra seja saboreada. Além disso, a narrativa está tão impregnada com a dor de Cecília que dá a sensação de que esse vazio se estende até ao leitor, causando-lhe um certo mal-estar durante a leitura. O autor recorre a uma peste, uma epidemia que nasceu com o sofrimento de Cecília e se estende pela população, dizimando toda a vida em seu redor, para nos mostrar o poder da solidão. É um conto que convida à reflexão, mostrando como a solidão e a depressão podem afetar todos à nossa volta e alertando para a importância de fazer o luto corretamente. Um conto para ler e reler!

"Anátema" de Pedro Nuno Galvão (3*)
Para mim, este foi um dos contos mais difíceis da antologia. Trata-se de um monólogo bastante ambicioso, resultante de uma conversa entre dois indivíduos que estão longe da cidade, mas o conto dá-nos apenas as falas de um deles, aquele que está há mais tempo a viver na natureza. Confesso que me provocou alguma estranheza e nem depois da segunda leitura o achei mais fácil de compreender. Não deixa de valer a pena a sua leitura, mas talvez seja um conto que não conquiste facilmente todo o tipo de leitores.

Por fim, nesta Antologia, podem ainda encontrar o meu conto - A Maldição da Casa da Colina - cuja opinião deixarei a cargo dos leitores. Espero sinceramente que seja uma leitura prazerosa!

Faço um balanço muito positivo da Antologia e volto a mencionar a importância de lermos autores portugueses, de apoiarmos as pequenas editoras e de darmos uma oportunidade ao talento que existe no nosso país.

Classificação: 4/5 estrelas

sábado, 17 de novembro de 2018

"A Sombra do Vento" de Carlos Ruíz Zafón [Opinião]


Durante a leitura de A Sombra do Vento, tive curiosidade em ler algumas opiniões e constatei que curiosamente em muitas delas os leitores referiam que este livro precisava de uma altura certa para ser lido.
Isto fez-me pensar que devo ter escolhido o momento mais errado para o ler. E porquê? Porque foi necessário quase um mês e muita insistência da minha parte para o conseguir terminar.

Logo de início, deparei-me com a escrita maravilhosa do autor, escrita esta que deixa qualquer um a sentir-se impotente na forma como utiliza as palavras. Uma escrita riquíssima e, por essa razão, densa, dificultando o avançar da leitura.

A primeira parte do livro foi a mais complicada, avancei tão devagar que cheguei a sentir-me desesperada. A par disso, foi muito difícil manter-me motivada, embora aquele mistério me tivesse deixado curiosa desde as primeiras páginas.

Passada a primeira metade do livro, a leitura começou a correr melhor, apesar de eu nunca conseguir avançar muito de cada vez.
Senti-me cativada pela história dramática de Julian Carax, magnificamente bem contada. Por sua vez, gostava de ter visto mais da relação de Daniel e Bea, mas fiquei contente pela forma como acabou. Foi um final reconfortante.

Quero ainda dar destaque a Fermín, uma das personagens mais divertidas que encontrei na literatura nos últimos tempos. Posso mesmo afirmar que ele foi de uma grande ajuda  quando o meu aborrecimento ameaçava vir ao de cima, fazendo-me rir nos momentos em que mais precisava.

Uma leitura que recomendo, mas tenham em conta que é um livro denso e que talvez tenham de procurar a melhor altura para se perderem nele.
Vou certamente procurar mais obras do autor, mas apenas quando sentir que tenho mais disponibilidade mental para isso.

Classificação: 4/5 estrelas

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

"As Nuvens de Hamburgo" de Pedro Cipriano [Opinião]


As Nuvens de Hamburgo ganhou, este ano, o Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Portuguesa. Este e os outros Prémios Adamastor são organizados pelo Colectivo Trëma e são atribuídos todos os anos durante o evento Fórum Fantástico.

Tinha imensa curiosidade em relação a este livro, embora não soubesse muito bem o que esperar da história. É um livro pequeno, que não chega às 100 páginas e, por vezes, tenho de confessar que sinto alguma reserva em relação a livros curtos. Não porque não sejam bons, mas geralmente pecam pela falta de desenvolvimento.

O livro do Pedro acabou por ser uma pequena grande surpresa. É-nos apresentada Marta, uma estudante de Erasmus que escolhe a cidade de Hamburgo como forma de se distanciar dos pais, demasiado protetores. Assim que chega à sua nova cidade, descobre que consegue viajar no tempo e, nestas suas viagens, testemunha as brutalidades do Holocausto.

A história é narrada em primeira pessoa e, de início, ainda me custou a ver a Marta como uma mulher. Penso que estava a imaginar o próprio autor, que viveu na Alemanha, e certamente muitos dos pormenores que encontramos no livro se baseiam um pouco na sua experiência.

Acompanhamos a experiência de Marta numa nova cidade, que se revela deveras desafiante. Vemo-la a fazer novas amizades e a lutar para ultrapassar as barreirais culturais e linguísticas. Creio que o autor mostrou muito bem este aspeto. Eu considero o alemão uma língua bastante difícil (acho que aprenderia mais facilmente russo do que alemão) e, por diversas vezes, senti as aflições da personagem por estar num país novo e ainda não se sentir à vontade com a língua.

A par de tudo isto, começam a suceder-lhe as estranhas viagens temporais. Nesses momentos, Marta é transportada para a Alemanha da Segunda Guerra Mundial e dá por si a testemunhar as brutalidades que foram cometidas nesses tempos. A confusão inicial dá origem à curiosidade de perceber porque é que aquilo lhe está a acontecer e se haverá forma de controlar ou impedir aquele seu "dom" de acontecer. À medida que as viagens se tornam mais perigosas, fica ainda mais urgente desvendar todo aquele mistério.

Este pequeno livro, com uma escrita simples, dinâmica e sem floreados linguísticos, leva-nos numa viagem cativante pela Alemanha nazi. As viagens no tempo tornam a história viciante e adicionam suspense ao livro. Tal como a personagem, também o leitor não descansará até chegar à última página. Esta deixa-nos aquela sensação reconfortante de quem se perdeu numa boa leitura e ainda uma pequena promessa de uma continuação. Será que ainda vamos conhecer mais aventuras da Marta?

Uma leitura que me surpreendeu pela positiva e que recomendo! Vamos apostar nos autores portugueses, pois o nosso país está repleto de talentos para descobrir!

Classificação: 3/5 estrelas

sábado, 20 de outubro de 2018

"À Beira do Colapso" de B. A. Paris [Opinião]


Depois do grande sucesso do seu primeiro livro, Ao Fechar a Porta, B. A. Paris regressa com um novo título bem chamativo. Mal soube da sua publicação em Portugal, não resisti a comprá-lo de imediato.

Numa noite de tempestade, Cass vê uma mulher dentro de um carro estacionado no bosque. No dia seguinte, descobre que essa mulher foi assassinada e que ela nada fez para a ajudar. Agora, atormentada pela culpa, Cass vai viver momentos bem difíceis...

Gostei imenso da forma como a autora construiu a Cass. A história é toda contada na perspectiva dela e por isso temos acesso a todas as suas preocupações, aflições e ao sentimento de culpa que a consome à medida que o tempo passa.
A par disso, ficamos a saber que a mãe dela teve demência e morreu muito jovem. Cass tem medo de vir a sofrer da mesma doença que a mãe e, de facto, o seu receio aumenta quando ela começa a esquecer-se das coisas mais básicas.

Este foi um dos aspetos que considerei mais interessantes no livro. Não é uma personagem em quem possamos facilmente confiar tendo em conta que a vemos fazer determinada coisa e, mais tarde, percebemos que aconteceu algo diferente e ela esqueceu-se. É difícil acreditar nela perante tantas incongruências.


O mistério deste livro não é tão surpreendente como o do anterior mas, para mim, manteve-se viciante desde o início. Não cheguei a suspeitar do final, o que tornou a leitura ainda mais atrativa para mim, no entanto, quando tudo foi revelado, percebi que até não era nada de extraordinário. Ou seja, com uma ideia aparentemente simples, a autora conseguiu estruturar o livro de forma bem interessante.

É possível que alguns leitores descubram rapidamente o final e o achem muito óbvio, daí que muitas opiniões considerem que este livro não é tão bom como o anterior. De facto, é muito difícil a autora conseguir igualar o seu romance de estreia.

Apesar de tudo, é um excelente thriller psicológico que não deixo de recomendar, quer conheçam ou não o trabalho anterior da autora. Espero que gostem!

Classificação: 4/5 estrelas

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Antologia | "Os Monstros que nos Habitam", de Vários Autores [Opinião]


Ler uma antologia é uma ótima forma de conhecer novos autores e ter uma ideia daquilo que eles nos podem oferecer.
A Editorial Divergência é uma editora especializada na ficção especulativa e que aposta em exclusivo em autores nacionais, procurando dar-lhes uma voz e uma oportunidade de mostrar o seu talento.

Os Monstros que nos Habitam é uma antologia paranormal que reúne contos de seis autores.
Deixo aqui a minha opinião de cada um dos contos:

"A Maldição de Odette Laurie" de Nuno Ferreira (3*)
Uma jovem é acusada de bruxaria e consegue fugir do vilarejo onde vive antes de ser condenada à morte. Cerca de 40 anos depois, regressa, aparentemente, para consumar a sua vingança.
Gostei da temática do conto que, em termos de estrutura, está dividido em pequenos capítulos. Não foi dos contos que mais me assustou e, por vezes, senti que a narrativa se arrastava um pouco com descrições que não faziam avançar a ação. Talvez tivesse resultado melhor se o conto fosse mais direto. Apesar de tudo, fiquei com vontade de conhecer outros trabalhos do autor Nuno Ferreira.

"Vento Parado" de Ângelo Teodoro (4*)
Um escritor decide mudar de casa após a morte da mulher, numa tentativa de conseguir lidar melhor com a perda. Contudo, na nova casa, coisas estranhas começam a acontecer.
Um dos contos de que mais gostei nesta antologia. É misterioso, dá bom uso ao suspense e com uma personagem pouco credível (está em processo de luto mas também se refugia muito na bebida). O final deixa o leitor a pensar no que poderá ter acontecido. Um excelente conto que li de um só fôlego e nem dei pela passagem das páginas. Quero ler mais trabalhos do autor!

"A Essência do Mal" de Alexandra Torres (4*)
Uma mulher foge do marido violento e é acolhida por um senhor idoso, numa velha mansão.
Achei a temática do conto muito interessante e a forma como a autora construiu um Mal, uma entidade que se alimenta de inveja e da ganância do ser humano. Gostava apenas de ter visto a história um pouquinho mais desenvolvida, principalmente na forma como Clara lida com o Mal. No geral, é um conto com uma escrita excelente, que se lê de um sopro e cujo final permite a justiça que a personagem merece.


"Génesis" de Patrícia Morais (2*)
Um cientista cria monstros inimagináveis e uma mulher tenta detê-lo.
Não sei muito bem o que pensar sobre este conto; gostei da premissa e do mundo futurista que a autora criou, mas não me senti totalmente cativada com o desenvolvimento da narrativa nem com o final. Este ficou demasiado aberto, como se houvesse uma continuação, ou como se este conto fosse uma espécie de prólogo. Não que isto seja mau, mas os contos devem ter princípio, meio e fim. Não me convenceu e creio que teria beneficiado de uma revisão mais cuidada.

"O Canto da Sereia" de Soraia Matos (4*)
Achei este conto muito especial e com uma escrita maravilhosa. Nunca tinha lido nada sobre sereias e senti-me cativada e curiosa desde o início, querendo saber mais sobre estas criaturas belas e perigosas. É um conto repleto de ação e descobertas, capaz de envolver o leitor. Vou, sem dúvida, ficar atenta a mais trabalhos desta autora.

"Páginas Assassinas" de Carina Rosa (4*)
Este foi um dos contos que mais me surpreendeu, talvez porque já conheço alguns trabalhos da autora e estou acostumada a histórias mais românticas. Assim, foi muito bom vê-la aventurar-se no paranormal com uma pitada de terror. Curiosamente, foi o único conto da antologia que conseguiu provocar-me calafrios e que fez despertar em mim sensações de medo. Uma história sobre escrita e como ela pode levar o autor à obsessão. Recomendado!

No geral, faço um balanço positivo desta leitura, que recomendo vivamente. Vale a pena conhecer novos autores e, principalmente, apoiar o que se produz em Portugal.

Classificação: 4/5 estrelas

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

"O Escultor da Morte" de Chris Carter [Opinião]


Este é o primeiro livro que leio de Chris Carter, autor que estava desejosa de experimentar devido aos imensos comentários positivos que tenho lido.

Imaginem um assassino que não só tortura as suas vítimas como também as corta aos pedaços e ainda constrói esculturas com as partes do corpo decepadas. Este é o assassino que encontrarão em O Escultor da Morte.

Logo desde o início, fiquei presa com o sentido de humor macabro do assassino. A escrita do autor e os capítulos bem curtos convidam a uma leitura voraz embora, na minha opinião, possam ser necessárias algumas pausas para digerir o conteúdo do livro.

Não costumo impressionar-me muito com os detalhes dos livros (embora tudo dependa da forma como está escrito), mas este livro deixou-me mal disposta por diversas vezes.
As breves aparições do assassino são brutais e apresentam descrições cruas e bem gráficas. As descrições dos resultados das autópsias são simplesmente dolorosas de ler e, por vezes, dei comigo a tentar imaginar o sofrimento da vítima. Concluí que não era sequer possível tendo em conta as atrocidades que foram cometidas


O foco principal deste livro consiste em tentar perceber o que vai na mente do assassino, quais as suas motivações para cometer crimes tão hediondos. É óbvio que perto do final estamos desejosos de conhecer a identidade dessa pessoa, mas o mais importante é compreender as suas razões.

É difícil descobrir a identidade do assassino até porque não nos são dadas muitas pistas. Os próprios detetives têm dificuldades na sua investigação e só as revelações dos últimos capítulos tornam possível completar o puzzle.

O Escultor da Morte encontra-se extremamente bem estruturado e organizado, mostrando-nos como deveria ocorrer uma investigação na realidade. Combina muito bem a parte pessoal e profissional das personagens, permitindo-nos conhecê-las aos poucos e mantendo sempre alguma curiosidade, dado que nem tudo acerca delas é revelado.
Este livro demonstra igualmente a grande capacidade criativa do autor, conjugada com a sua experiência em psicologia criminal.

Um livro e uma série imperdível para os fãs de thrillers negros e viscerais.

Classificação: 5/5 estrelas

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

"As Impertinências do Cupido" de Ana Gil Campos [Opinião]


As Impertinências do Cupido é o mais recente trabalho de Ana Gil Campos, publicado em 2017 pela Coolbooks.
Desta autora, já tinha lido o seu primeiro livro, A Segunda Pele da Acácia Mimosa, e tenho em casa, ainda por ler, Quando Ruiu a Ponte Sobre o Tamisa.

Este pequeno livro apresenta-nos diversos contos de personagens que vivem em Itaim Bibi, um bairro nobre de São Paulo, e cujas vidas acabam por se entrelaçar.

São contos subordinados à temática das relações amorosas nos dias de hoje, em que as personagens passam por diversas reflexões. Temos os solteiros, incapazes de acreditar que vão encontrar o verdadeiro amor, os recém-casados, que subitamente sentem dúvidas acerca do seu casamento, os que já têm filhos e se sentem insatisfeitos e pouco amados, os que traem e são traídos, e os que se apaixonam fugazmente.

A particularidade mais interessante deste livro é que as pequenas histórias estão escritas de forma a caricaturar as relações amorosas atuais, o que torna a leitura muito divertida. Eu comecei a ler e, pouco depois, já estava a rir às gargalhadas de tão caricatas que eram as situações.
Um dos contos que mais me fez rir foi «Chilrear do azulejo», que retrata a forma como muitas pessoas vivem as relações mais para mostrar nas redes sociais do que para desfrutar da intimidade em si.
Também adorei o conto «Pé de moleque», sobre um homem que desenvolveu uma espécie de paixão obsessiva por uma mulher e então interpretava todas as pequenas ações dela de forma completamente errada.


No geral, é um bom livro para descontrair durante um par de horas, onde também somos presenteados com uma escrita agradável e que foi evoluindo ao longo do tempo. É um livro perfeito para uma tarde na piscina ou na praia, para ir lendo entre mergulhos. Recomendo!

Classificação: 3/5 estrelas

terça-feira, 4 de setembro de 2018

"As Instruções de Pitonisa" de Erik Axl Sund [Opinião]


É com um sentimento agridoce que termino o último livro da trilogia As Faces de Victoria Bergman.

Foi uma leitura dura, por vezes arrepiante e que nem sempre decorria com a rapidez que eu queria. Havia momentos em que não conseguia ler muito, e outros em que desejava ler de forma compulsiva.

Neste livro, Jeanette continua a investigação, tentando finalmente unir todas as pontas soltas. Por sua vez, Sofia Zetterlund continua o processo de se compreender a si própria.

Embora o primeiro livro tenha sido aquele que mais me surpreendeu, devido a uma revelação importante, os volumes seguintes não deixaram de se manter estruturados e com algumas surpresas. Este terceiro volume voltou a surpreender-me, com a descoberta do verdadeiro culpado pelas mortes dos meninos investigados no início da trilogia. Foram descrições cruas, difíceis de ler mas, ao mesmo tempo, fascinantes pela maldade de que o ser humano é capaz.

Os autores conseguiram desconstruir as certezas que fomos criando desde o primeiro volume, e gostei muito disso.
Apesar de toda a mestria inquestionável que os autores revelaram, não sei ainda se me sinto satisfeita com o final dado à trilogia. Compreendi o final, contudo fiquei com uma sensação estranha, como se algo permanecesse inacabado. Parece-me que ainda havia tanto a ser explorado, daí o meu sentimento agridoce.

No geral, o balanço é extremamente positivo e recomendo sem reserva a leitura desta trilogia a todos os amantes de policiais e thrillers negros. Vale muito a pena!

Classificação: 4/5 estrelas

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

"A Cada Dia" de David Levithan [Opinião]


Quando terminei o segundo volume de Erik Axl Sund, este livro veio mesmo a calhar. Estava a precisar de uma leitura mais leve e descontraída depois de uma leitura tão densa.

A Cada Dia trouxe-me isso mesmo: uma história cativante, com uma premissa que logo me chamou a atenção e que devorei em poucos dias.

A. é um jovem  que todos os dias acorda num novo corpo, numa nova vida. Sempre viveu assim e, por isso tem algumas regras:  Não se apegar muito, evitar ser notado e não interferir.
No entanto, tudo muda quando, um dia, acorda no corpo de Justin e conhece a sua namorada, Rhiannon. As regras deixam de se aplicar quando ele percebe que é com ela que quer estar a cada dia, todos os dias.

Penso que nunca tinha lido nada com esta premissa e, por essa razão, achei a ideia muito boa. O autor soube-a aproveitar muito bem e dava comigo, ao longo da leitura, a querer saber mais, a tentar perceber como era viver sendo A., sem um corpo fixo, sem poder ter uma família e sem tudo aquilo que nós geralmente tomamos como garantido.

A. mostra-nos como é viver em diversos tipos de corpos e pessoas, sejam rapazes ou raparigas, magros ou gordos, brancos ou negros, sejam pessoas boas ou más, pessoas com problemas mentais ou tendências suicidas, jovens com diferentes orientações sexuais.
É interessante na medida em que retrata o adolescente que não se sente bem no próprio corpo, bem como outras temáticas que afetam os jovens nestas idades.

Apesar de ter compreendido o conceito logo desde as primeiras páginas e de nunca ter achado a leitura confusa, acho que o autor passou logo para a mudança, sem nunca nos ter mostrado como era a normalidade da vida de A. Estes aspetos eram-nos contados aos poucos, mas nunca chegamos a ver o A. bem comportado; apenas conhecemos aquele que, de um momento para o outro, começou a desrespeitar todas as regras por si impostas.

Não me senti muito cativada pela história de amor que, na minha opinião, aconteceu muito depressa. Este amor tinha tudo para ser trágico, logo à partida, e acho que foi isso o que mais gostei: ver as formas que A. arranjava para ir encontrar-se com Rhiannon e perceber se haveria alguma forma de ficarem juntos.
O final não foi exatamente o que imaginei mas, para ser sincera, ainda não sei bem que final gostava de ter lido. Acho que precisava de mais respostas, de compreender melhor a condição de A., para poder imaginar um final que me fizesse mais sentido.

No geral, foi uma leitura interessante, que nos fala de empatia e que ajuda a quebrar alguns preconceitos. Recomendo a sua leitura tanto ao público juvenil como adulto.

Classificação: 3/5 estrelas

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

"Fome de Fogo" de Erik Axl Sund [Opinião]


Depois de A Rapariga-Corvo, Fome de Fogo da continuação à trilogia As Faces de Victoria Bergman.

No primeiro volume, fomos acompanhando a investigação do caso dos meninos mortos, investigação essa que acabou por ser posta de parte, devido ao aparecimento de um novo homicídio para investigar: o de um homem de negócios. À medida que Jeanette Kihlberg investiga, vai-se apercebendo que afinal os dois casos podem estar relacionados e têm um ponto em comum: Victoria Bergman.

Torna-se mais premente investigar esta mulher e o seu passado, contudo, as informações referentes a ela são confidenciais.

Gosto muito do facto de, neste momento, o leitor já saber mais sobre Victoria Bergman do que Jeanette. Depois da revelação surpreendente que recebemos no primeiro volume, é impossível permanecer indiferente. Por um lado, quero que Jeanette descubra tudo e consiga concluir a investigação mas, por outro lado, não deixo de pensar que final terão os autores reservado para Victoria Bergman, umas das personagens mais aterradoras e fascinantes que já encontrei na literatura.

Este livro mantém a mesma atmosfera negra que já caracterizou o primeiro volume e intensifica as sensações do leitor, à medida que revela mais pormenores chocantes.

Como é natural num segundo volume de uma trilogia, o final é repentino e deixa ainda muitas perguntas por responder.
Estou com grandes expectativas em relação ao último volume, onde o cerco ficará ainda mais apertado e terei, certamente, um maior conhecimento em relação à figura central da história.

Não percam o segundo volume desta trilogia intrigante, perturbadora e difícil de esquecer!

Classificação: 4/5 estrelas

terça-feira, 14 de agosto de 2018

"Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa" de Judith Kerr [Opinião]


Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa é um livro juvenil, publicado originalmente em 1971, por Judith Kerr.

Publicado há 47 anos, este livro continua extremamente atual, numa altura em que se fala muito de migrantes e refugiados.

 O livro conta a história de Anna e da sua família. Em 1933, Hitler está quase a subir ao poder e o pai dela tem de fugir do país. Pouco depois, Anna, juntamente com a mãe e o irmão, juntam-se a ele com todo o sigilo. E é na Suiça que vão iniciar uma nova aventura.

A escrita da autora é muito cativante e achei enternecedora a forma como ela escreve para o público mais jovem. Dei por mim tanto a rir-me às gargalhadas com as peripécias dos dois irmãos, como a sentir-me comovida com as suas conquistas.
Vivemos com eles a aventura que é mudar de país, aprender uma língua nova e habituar-se aos costumes da população, alguns bastante estranhos.
Depois da Suíça, ainda partem para França e, mais tarde, para a Inglaterra, sempre em busca de um local onde o trabalho do pai de ambos seja mais valorizado.

O livro retrata de forma bastante subtil o tema da Segunda Guerra Mundial, acabando por ser uma espécie de introdução, uma vez que a narrativa acontece anos antes do início da guerra.
Gostei muito e recomendo vivamente a sua leitura, tanto pelo público jovem como pelo mais graúdo.

Classificação: 4/5 estrelas

sábado, 28 de julho de 2018

"És o Meu Destino" de Lesley Pearse [Opinião]


As obras de Lesley Pearse são sempre uma boa escolha para horas bem passadas e repletas de emoções. Foi a Silvana que me levou a começar a ler os livros desta autora e, graças a ela, já tive oportunidade de ler uns quantos.

És o Meu Destino é o terceiro volume da saga de Belle, uma das melhores personagens que já tive o prazer de encontrar na literatura. Os dois primeiro livros centram-se em Belle e, neste terceiro, conhecemos e acompanhamos a vida da sua filha Mariette.

Mariette é uma jovem irresponsável, desafiadora, egoísta e que está farta da pequena cidade onde vive, na Nova Zelândia. Devido aos seus comportamentos rebeldes, os pais consideram que será melhor enviá-la para Londres, onde ela poderá ter novas experiências e ganhar alguma maturidade.

Só não esperavam é que, pouco tempo depois, começasse a Segunda Guerra Mundial e, com ela, os violentos bombardeamentos nazis na cidade de Londres.


Ao longo desta páginas, assistimos a um gigantesco crescimento por parte desta personagem. Mariette passa de uma jovem fútil e egoísta a alguém corajoso, com vontade de ajudar os outros e até pronta a arriscar a própria vida para proteger os mais desfavorecidos.

É uma personagem que se fortaleceu pela tragédia e que não se deixou abater com os acontecimentos terríveis que teve de vivenciar.

Este é um livro bastante dramático embora, na minha opinião, não tão dramático como o segundo da série. Houve momentos em que chorei mas, na maior parte do tempo, senti-me mais fria, um pouco mais desvinculada de Mariette. Não significa que não tenha gostado dela, porque gostei. Apenas senti que por ser uma personagem mais fria, mais pronta a fazer o que tinha de ser feito sem se queixar e sem se deixar mergulhar na autocomiseração, talvez isso tenha passado também para mim e se tenha refletido na forma como aceitei esta personagem.

Recomendo absolutamente este livro, bem como toda a série. Existem já imensos livros da autora, é só escolher caso desejem experimentar. Prometo que serão leituras muito boas e repletas de emoções.

Classificação: 4/5 estrelas

quinta-feira, 19 de julho de 2018

"A Rapariga-Corvo" de Erik Axl Sund [Opinião]


Comprei este livro o ano passado na Feira do Livro e acabei por emprestá-lo à minha melhor amiga antes de eu própria o ler. Quando mo devolveu, ela disse-me que já tinha lido toda a trilogia e que eu teria de o ler o mais depressa possível e que iria precisar dos outros dois volumes com urgência.

Decidi então embrenhar-me na leitura deste thriller, o primeiro volume da série As Faces de Victoria Bergman.

A história vai-se centrando em Jeanette Kihlberg, uma polícia que investiga uma série de homicídios macabros de meninos em Estocolmo. São casos difíceis, com poucas pistas, e, quando surgem suspeitos, nem o procurador autoriza a que essas pessoas sejam investigadas.

Paralelamente, conhecemos também Sofia Zetterlund, uma psicoterapeuta que trata de casos difíceis, trabalha maioritariamente com pessoas traumatizadas. Neste momento, tem dois pacientes desafiantes: Samuel Bai, uma criança-soldado, e Victoria Bergman, uma mulher com um profundo trauma de infância.

Ambos os pacientes de Sofia sofrem de transtorno dissociativo de personalidade, um tema sobre o qual muito me agradou ler. Já tinha visto esta temática explorada em filmes, mas creio que foi a primeira vez que li algo do género. Senti-me fascinada com um capítulo em que Sofia explora as várias personalidades de Samuel Bai e só fiquei com pena de ter achado pouco.

Victoria Bergman é uma mulher estranha, que sofreu horrores na sua infância. Mesmo com os capítulos que nos transportam para o passado, ainda ficou muito por contar acerca desta mulher.

Os capítulos são pequenos, o que torna a leitura bastante dinâmica. No início, estava a custar-me adaptar-me à leitura porque me parecia haver pouca ação e muitas informações acerca da vida pessoal das protagonistas. Mais para o fim, compreendi que tal era necessário para o desenrolar dos acontecimentos.

Este é um livro duro, sombrio, que explora o tema da pedofilia e do tráfico de crianças. É um livro onde a maldade está muito presente, nos arrepia e nos faz revolver o estômago.
Perto do final, surge uma reviravolta completamente inesperada. Foi isso que me fez terminar o livro a uma velocidade estonteante, tal era o meu desejo de compreender.
Cheguei ao fim a desejar poder ler de imediato o volume seguinte, tal como a minha amiga bem me avisou.

Recomendo vivamente este thriller extraordinário e estou desejosa de ler a continuação da trilogia.

Classificação: 4/5 estrelas

segunda-feira, 2 de julho de 2018

"O Que Fica Somos Nós" de Jill Santopolo [Opinião]


Começo por agradecer à Suma de Letras pela oferta deste exemplar que me permitiu conhecer uma nova autora e uma história incrível.

Gabe e Lucy conhecem-se na universidade por altura da 11 de setembro de 2011, a data do acontecimento que mudou o mundo.
Este dia mudou também a vida destas duas personagens que queriam encontrar um significado para as suas vidas, deixar uma marca no mundo.

Quando Lucy e Gabe se conheceram estavam cheios de sonhos. Lucy começou a sua carreira a trabalhar num programa para crianças. Por sua vez, Gabe acabou por se tornar repórter no Médio Oriente, o que conduziu à separação de ambos.

Lucy ficou destroçada e a autora soube mostrar na perfeição o que sentimos quando terminamos um relacionamento.

O Que Fica Somos Nós é escrito quase em formato de carta. Lucy escreve para Gabe a recordar toda a história de ambos e as decisões que se seguiram à sua separação.

Não sei se terá sido devido a esta forma de narrativa mas o certo é que este livro é maravilhoso de se ler. Nota-se na escrita da autora uma doçura e sensibilidade que não se encontra facilmente noutros livros. Diria também que dá para perceber a importância que o tema do primeiro amor tem para a autora, ou pelo menos tinha na altura em que escreveu este livro.

À medida que ia conhecendo as personagens, ia também ganhando mais afinidade por umas do que por outras. Sempre gostei de Lucy mas não posso dizer o mesmo de Gabe. Achei-o um pouco egoísta, contudo, compreendo que tinha todo o direito de seguir o seu sonho e, assim, abdicar de um relacionamento.
Acabei por gostar muito mais de Darren, da forma como ele ajudou Lucy a sair do buraco negro deixado por Gabe e de como, mais tarde, se tornou tão importante para ela, embora Lucy nunca tenha deixado de comparar os dois em todas os acontecimentos e decisões da sua vida.

O final deste livro é de quebrar o coração e certamente os leitores ficarão com os olhos marejados de lágrimas. Confesso que, à medida que progredia na leitura, ia-me preparando para algo importante no final, mas tenho de admitir que nada me preparou para o choque que senti com aquele acontecimento devastador.

Espero sinceramente que possam ler esta história maravilhosa que nos faz recordar o nosso primeiro amor e, em simultâneo, acreditar que um dia vamos encontrar um amor assim poderoso que também nos faça sentir invencíveis e infinitos. Leitura absolutamente recomendada!

Classificação: 4/5 estrelas

Nota: Este livro foi-me cedido pela editora em troca de uma opinião honesta.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

"Resistir ao Amor" de Jill Mansell [Opinião]


Resistir ao Amor foi o primeiro livro que li da autora Jill Mansell.

Este conta-nos a história de Maddy Harvey, que se apaixona por Kerr McKinnon. Contudo, aquele é um amor impossível. A mãe de Maddy não permite que ela namore com aquele homem devido a algo que aconteceu no passado. Mas que culpa tem ela de não conseguir resistir ao amor?

A autora conduz-nos por diversas histórias, todas entrelaçadas, na pequena localidade de Ashcombe. É muito giro acompanhar as peripécias das várias personagens, e sempre sem qualquer confusão e sem perigo de misturarmos as histórias.

A leitura é romântica, divertida e ideal para uma tarde de verão. Promete gargalhadas, segredos, intrigas, muitos pares românticos e até uma lágrima ao canto do olho.

Classificação: 3/5 estrelas