terça-feira, 19 de julho de 2016

"Uma Boa Mulher" de Jill Alexander Essbaum [Opinião]


Uma Boa Mulher é o romance de estreia da autora Jill Alexander Essbaum e devo, desde já, agradecer à editora Clube do Autor por me ter proporcionado a oportunidade de ler este livro.

A capa florida, além de ser linda, pode levar o leitor a pensar que se tratará de um romance doce e calmo. Desenganem-se já, pois nestas páginas encontrarão uma história intensa e que certamente vos perturbará.

A personagem central do romance é Anna, uma americana que vive há nove anos na Suiça. É casada, tem três filhos e, em geral, tem uma vida boa, contudo sente-se descontente. Embora viva há bastantes anos neste país, continua a sentir-se deslocada e sem ser capaz de encontrar um rumo para a sua vida. Para colmatar este vazio, Anna refugia-se em casos extraconjugais, que a ajudam a distrair-se da monotonia dos seus dias. Contudo, quando decide pôr fim àquela situação, Anna vai perceber que desencadeou uma terrível cadeia de eventos e que será impossível voltar atrás.

Não conhecia esta autora, mas desde o início que me senti cativada pela sua escrita. Nos primeiros capítulos estranhei um pouco, principalmente porque a autora descreve imenso o dia-a-dia dos suíços, os costumes e a rigidez do país, mas, ultrapassando esta fase inicial, a leitura acaba por tornar-se muito prazerosa.

Além da vida presente de Anna, que inclui a vida familiar e o curso de alemão que ela frequenta, encontramos também algumas partes referentes ao passado e ainda conversas com a psicanalista que a tenta ajudar. Todos estes aspetos se misturam de forma excelente, isto é, na mesma página podemos viajar entre o passado e o presente da personagem e ainda assistir às suas consultas com a psicanalista.
Pode parecer confuso para os leitores que não gostam de tantos cortes na narrativa, mas asseguro-vos de que resulta extremamente bem e torna o livro muito mais interessante.

Anna é uma daquelas personagens que facilmente pode ser detestada, por nos parecer que se comporta como uma vítima e que nada faz para mudar a sua vida. No entanto, a autora consegue colocar-nos dentro da cabeça desta mulher, fazer-nos compreender a sua dor, e eu senti-me fascinada por ela. Obviamente que condeno o adultério e não acho que seja uma forma de resolver o que quer que seja, mas adorei ver a forma como Anna se comportava e se sentia em relação a isso, alternando entre a culpa e a vergonha, o amor e a luxúria, tentando desculpar-se e procurar razões válidas para as suas ações.

Anna é uma mulher extremamente frágil e, quando acontece algo completamente inesperado, assistimos ao ruir de toda esta estrutura. Eu própria me senti como se tivesse levado um murro no estômago com este acontecimento. A partir daqui, comecei a perceber para onde a autora ia dirigir o final; sabia que seria previsível e, embora desejasse outro final, a autora deu-me exatamente o que eu queria. E acho que nunca vou esquecer aquela última frase do livro.

Em conclusão, Uma Boa Mulher é um romance complexo e fascinante, escrito de forma magistral e que irei, sem dúvida, reler no futuro. Duas semanas após terminar a sua leitura, ainda sinto um aperto no peito de cada vez que penso nestas personagens. A história de Anna é de tal forma convincente que podia ser real. Adorei e recomendo vivamente este romance, um dos melhores que li nos últimos meses.

Classificação: 5/5 estrelas

Nota: Este livro foi-me cedido pela editora em troca de uma opinião honesta.

5 comentários:

  1. A capa para além de ser linda, capta a atenção!
    E o teu post deu-me vontade de o ler :)
    Parabéns pelo blogue, vou seguir :)

    with love,
    Utopia

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    1. Olá Utopia,
      Sê bem-vinda :)

      A capa é ainda mais bonita ao vivo :)
      Fico contente que a minha opinião te tenha deixado curiosa; é uma leitura muito boa e espero que tenhas oportunidade de ler.

      Beijinhos

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  2. Já há muito tempo que queria vir aqui ver a tua opinião a este livro, mas os dias vão passando e acabava sempre por me esquecer.
    Eu não achei o início nada fácil. Foi um pouco aborrecido porque há imensos cortes na narrativa e a Anna deixava-me completamente deprimida e frustrada.
    A questão da vitimização é interessante. Eu não acredito que ela se senti-se vítima até àquele acontecimento que muda radicalmente a minha perspetiva. Acho apenas que, até aí era uma mulher à deriva que se deixava comer pelos seus sentimentos negativos e pelas suas mentiras e artimanhas para as manter.
    Eu não consegui entrar assim tanto na cabeça da Anna, precisa de mais dela.
    Viver num país onde não nos encaixamos não é fácil, e aí a autora conseguiu um bom trabalho, mas ficou-me a dúvida: Será que a Anna em algum momento da sua vida se adaptou ao meio onde vivia? Será que em algum momento ela foi feliz? A mim pareceu-me que ela sempre foi desajustada, mas para ter certeza precisa de ver mais da Anna no passado e no presente.
    Porém, no geral é um bom livro.

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    1. Não temos dados do passado da Anna, para perceber se ela já esteve assim desajustada noutro meio, mas também não me recordo de todos os pormenores do livro.
      Mas uma pessoa num país novo, não sabendo falar a língua, não tendo amigos, insatisfeita com a vida familiar e marital, pode perfeitamente ter sentimentos negativos e até estar deprimida, e nem todas as pessoas conseguem lidar com o assunto e "erguerem-se" sozinhas. É complicado.

      Eu na altura adorei e continuo a gostar imenso deste tipo de histórias mais negras e com personagens mais desajustadas.

      Beijinhos

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    2. Por acaso, no livro tem lá uma parte em que ela aceita viajar com o Bruno para a Suíça porque sentia que não pertencia aos EUA, agravado pela situação de ter perdido os pais.
      Acho que mais do que depressão, ela tinha um comportamento aditivo, ela era viciada no prazer sexual. Tem ali algumas coisas que a atiram para uma depressão, mas não achei que isso tivesse ficado muito claro. Também porque comecei a elaborar na minha cabeça teorias acerca de um possível distúrbio de personalidade.
      Claro que não é fácil. Ela de facto não tinha ninguém a quem recorrer, estava mesmo isolada. Acho que os sentimentos negativos vão é muito para além da depressão.
      Beijinhos

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