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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

"Sombras" de Patricia Morais [Opinião]


Sombras é o primeiro volume de uma série da autora portuguesa Patricia Morais, dentro do género da fantasia urbana.

Aqui conhecemos Lilly Ashton, uma jovem que tinha uma vida perfeita, até à noite em que tudo se desmorona à sua volta. De forma a conseguir lidar com a tragédia, Lilly age impulsivamente: muda-se para o outro lado do Atlântico para estudar Folclore e Mitologia. Contudo, depressa percebe que alguns dos monstros que pensava só existirem nos livros, afinal existem mesmo. E é aqui que conhece a organização de caçadores de demónios: os Diabolus Venator.

Iniciei a leitura deste livro com alguma curiosidade. Apenas tinha lido um pequeno conto da autora, publicado na antologia Os Monstros que nos Habitam.

Um primeiro aspeto que considero importante e que me chamou a atenção foi a revisão do livro. A autora referiu que o livro foi revisto pela editora, no entanto encontrei alguns erros e gralhas que me perturbaram e fizeram acreditar que a revisão foi muito superficial. Os autores portugueses têm todo o direito a boas revisões por parte das editoras, uma vez que isso melhora muito o aspeto final de um livro.

Relativamente à história, não é das mais empolgantes que já li mas encontramos algum suspense, momentos de ação e uma pitada de romance, que vão mantendo o leitor curioso.

[Fotografia da minha autoria]

A autora pesquisou imenso acerca do mundo sobrenatural e das criaturas que nele habitam, mas senti falta de mais explicações no livro. Queria ter conhecido novas criaturas mas estas foram mencionadas muito brevemente. A narrativa baseou-se principalmente em guerras entre lobisomens e vampiros, o que considerei cliché, apesar de não ler fantasia com muita frequência.

A minha parte preferida do livro foi a primeira missão da Lilly. Fez-me recordar a série Supernatural, que vi durante muitos anos. Esses dois capítulos estavam incrivelmente bons e senti mesmo que estava a ver um episódio da série. Mais tarde, em conversa com a autora, ela referiu que Supernatural foi uma das suas inspirações e este capítulo foi a forma que encontrou de prestar a sua homenagem à série.

Senti também falta de desenvolvimento em algumas personagens. São muitas e algumas delas pareciam um pouco desligadas, sem crescimento ao longo da narrativa. Liam foi aquele que me gerou mais sentimentos controversos. Parecia quase bipolar: tanto era gentil, como no minuto seguinte já estava a comportar-se rudemente, sem qualquer explicação para isso. As explicações foram chegando aos poucos, mas ainda não estou totalmente convencida e gostava de conhecer mais dele nos volumes seguintes da série.

No geral, não foi um livro marcante, mas ficou a vontade de querer conhecer a continuação da história. Parece-me uma boa leitura para os mais jovens que apreciam fantasia.

Classificação: 3/5 estrelas

sábado, 26 de dezembro de 2020

"Antecedentes Perigosos" de Tami Hoag [Opinião]


«Um thriller arrepiante com um toque romântico.»
New York Daily News
 
Na tentativa de continuar a dar atenção aos livros da minha estante, decidi pegar neste que tinha sido adquirido numa troca, em 2014. 
Já me tinha cruzado com vários trabalhos da Tami Hoag na época em que o meu pai era sócio da Círculo de Leitores, mas nunca lera nada da autora.

Este é o terceiro livro de uma série protagonizada pelos detetives Sam Kovak e Nikki Liska. Embora tenha também o primeiro livro da série, apeteceu-me começar por este simplesmente por ser versão de bolso e mais leve de manusear.

Se puderem, não leiam a sinopse. Na minha opinião, ela revela demasiado, incluindo um acontecimento que só ocorre depois de trezentas páginas. Senti que aquilo foi um pequeno spoiler; à medida que ia lendo, estava sempre à espera que aquilo acontecesse.

O que precisam de saber acerca desta história é o seguinte: após um terrível assassínio, a juíza Carey recusa-se a condenar Karl Dahl, o homem que todos acreditam ser o culpado. As provas não são conclusivas e a juíza não quer condená-lo apenas com base nos seus antecedentes. Contudo, isto gera uma onda de protestos na comunidade, deixando várias pessoas furiosas. Nesse mesmo dia, a juíza é atacada no parque de estacionamento e os detetives são chamados para descobrir o atacante.
 
[Fotografia da minha autoria] 

Gostei de conhecer estes dois detetives, embora não tenha acompanhado a sua história desde o primeiro volume. Consegui perceber que Sam tem dificuldade em ter uma vida amorosa, o que é um cliché bastante comum nestes livros, e que é muito dedicado aos casos em que trabalha.

A juíza Carey é-nos mostrada como uma mulher dura, quase sem compaixão. É assim que as pessoas a vêem. No entanto, o seu trabalho como juíza, em que necessita de ser imparcial, não é tão preto no branco. Após ser atacada, vemos uma mulher frágil, que também tem sentimentos e inseguranças.

Confesso que encontrei vários clichés neste livro, mas não deixou de ler uma leitura interessante e que me envolveu. Temos vários suspeitos que guardam rancor à juíza e qualquer um deles poderá ser o culpado do brutal ataque. E depois temos o prisioneiro que foge da prisão e lança o pânico na cidade.
 
Creio que a autora conseguiu distribuir bem o suspense e alternar a narrativa por várias personagens, de forma a manter o leitor sempre atento.

Gostei de conhecer o trabalho desta autora e fiquei com vontade de ler o outro livro que também tenho dela. Será mais um antigo da estante que pretendo ler em breve!

Classificação: 4/5 estrelas

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

"O Prof" de Vi Keeland [Opinião]


Vi Keeland é aquela autora cujos livros são assim uma espécie de corta sabores, ou seja, são livros ótimos para intercalar com leituras mais pesadas. Depois de ler alguns thrillers, fiquei com vontade de um romance mais fofinho e escolhi este que estava na minha estante.

Já tinha lido O Boss e O Cliente, achei o primeiro hilariante e o segundo agradável. Agora, O Prof foi o meu preferido no que diz respeito à história do passado das personagens.

A Rachel e o Caine não se conhecem propriamente da forma mais simpática. Ela está num bar, um bocado bêbada, confunde-o com outra pessoa e vai insultá-lo rudemente. No dia seguinte, descobre que ele é o professor de uma disciplina em que ela vai lecionar como professora assistente. Um início que logo ali promete momentos bem engraçados!

As interações entre os dois nem sempre são simpáticas, o que naturalmente se traduz em momentos de gargalhadas para o leitor.

Rachel vai descobrir algumas coisas acerca de Caine, contudo, ao tentar abordar o assunto, ele mostra-se reservado, como se estivesse a esconder algo. É aqui que a narrativa viaja para o passado, dando-nos a conhecer o jovem Caine e os acontecimentos que o moldaram na sua vida adulta.

[Fotografia da minha autoria]
 
Gostei muito de conhecer estes dois protagonistas. Rachel é aquela jovem toda despachada que tenta conciliar um trabalho num bar enquanto termina o doutoramento. Nunca consegue chegar com pontualidade a lado nenhum e é extremamente resmungona!
Por sua vez, Caine é o tipo de homem que afirma já ter destruído todos os seus relacionamentos anteriores e que por isso não é digno de estar com alguém. Embora sinta uma enorme atração por Rachel, acha que não devia envolver-se com ela porque, mais cedo ou mais tarde, vai acabar por estragar tudo e magoá-la.

Mas o que será que Caine esconde? Será assim tão grave? Será que cometeu um erro assim tão imperdoável no passado?
Eu li este livro muito depressa. Sentia-me extremamente curiosa e, quando percebi o que unia estas personagens e como o passado se relacionava com o presente, fiquei surpreendida e de coração derretido, pois achei a parte final da história muito bonita e ternurenta.

Este é um livro que fala sobre perdão, principalmente a capacidade de nos perdoarmos a nós próprios. Por vezes, acontecem coisas ruins na nossa vida, que deixam marcas, mas em que a culpa não é nossa. Isso deixa-nos com uma grande sensação de culpa mas a verdade é que, se voltássemos atrás, não conseguiríamos mudar a forma como aconteceu. É importante perdoarmo-nos para podermos seguir em frente.

Em conclusão, O Prof é uma história bonita, com algum erotismo, muitos momentos engraçados e ótima para intercalar com leituras mais morosas. Para os leitores mais românticos e a precisar de ler qualquer coisa diferente, este livro será uma boa escolha para uma tarde relaxada no sofá!

Classificação: 4/5 estrelas

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

"Seita Maldita" de Tess Gerritsen [Opinião]


A série Rizzoli & Isles, de Tess Gerritsen, é uma das poucas séries literárias que faço questão de ler por ordem. Todos os livros escritos até ao momento (12 no total) estão traduzidos e publicados em Portugal e, embora alguns sejam mais difíceis de encontrar por já estarem esgotados, tem sido entusiasmante pesquisar e adquirir um de cada vez.

Os dois livros anteriores - O Clube Mefisto e Lembranças Macabras - centraram-se principalmente na investigação de um caso, havendo pouca evolução das histórias pessoais das protagonistas.

Seita Maldita é um livro que nos dá frio, uma vez que praticamente toda a narrativa se passa no meio da neve.
Desta vez acompanhamos Maura Isles, que vai assistir a uma conferência médica no Wyoming, onde encontra um antigo colega da faculdade. Num impulso, aceita o convite que ele lhe faz e decide passar o dia seguinte numa estância de esqui, com ele, a filha e um casal amigo.

Maura é uma mulher organizada e ponderada, com todos os pormenores da sua vida totalmente controlados. No entanto, está a passar por uma fase difícil na sua vida amorosa e, naquele momento, decide fazer algo impulsivo, sem planeamento.
Contudo, as coisas começam a correr mal quando o carro onde eles viajam fica preso na neve. Sem possibilidades de pedirem ajuda, encontram abrigo numa aldeia chamada Kingdom Come, estranhamente desabitada. Mas os seus problemas estão apenas a começar...
 
[Fotografia da minha autoria]
 
Eu diria que este livro está dividido em duas partes: a primeira centra-se em Maura e no grupo com quem ela viaja; a segunda altera um pouco o rumo, concentrando-se sobretudo na investigação de um crime.

Fiquei completamente agarrada ao livro na primeira metade, tendo lido quase duzentas páginas numa tarde de domingo. Sentia-me assoberbada pela história e incapaz de parar. Sofri imenso com os infortúnios do grupo de Maura e houve uma situação em particular que me deixou agoniada.
 
Mas o livro acabou por seguir um rumo diferente do que eu esperava e, embora isso me tivesse provocado alguma frustração, não fez diminuir o meu interesse pela história.

Posso referir que este é um livro empolgante acerca de sobrevivência. É também abordada a temática das seitas religiosas, do fanatismo e de como as pessoas obedecem cegamente ao seu líder, anulando todos os seus pensamentos e opiniões.

Estava com dúvidas sobre se deveria atribuir 4 ou 5 estrelas, tendo em conta que a segunda parte não correspondeu exatamente às minhas expectativas (por minha culpa, pois imaginei algo diferente) mas decidi-me pelas 5 pois o livro é muito bom e encontrei reviravoltas interessantes no final.

Pretendo, em breve, dar continuidade a esta incrível série. Tess Gerritsen é realmente uma autora a não perder!

Classificação: 5/5 estrelas

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

"As Intermitências da Morte" de José Saramago [Opinião]


As Intermitências da Morte foi o segundo livro de Saramago que li este ano e estou muito satisfeita com a minha decisão de começar a conhecer a vasta obra deste autor.

Eu diria que este livro é uma espécie de distopia, passado num determinado país onde, de repente, as pessoas deixam de morrer. Achei a premissa extremamente interessante e, logo no primeiro capítulo, somos atirados para o meio deste estranho acontecimento. Bastaram alguns parágrafos para o autor me deixar a refletir.
A morte é um acontecimento natural; embora isto seja um gigante cliché, a morte é a única certeza que temos na vida. Por muito que doa e nos custe perder um ente querido, a verdade é que a morte é natural e importante. Estamos acostumados a ela, por isso não deixa de ser estranho imaginar o que aconteceria se de repente ninguém morresse.

O autor retrata esta situação de forma excelente: os hospitais ficariam completamente cheios de idosos e pessoas doentes que, por um lado, não recuperariam das suas doenças mas, por outro, também não morreriam, ficando eternamente a ocupar camas. Os lares de idosos passariam a ser poucos para a procura existente. As agências funerárias ficariam mergulhadas numa terrível crise. E nem a Igreja Católica escaparia, uma vez que sem morte não há ressurreição.
 
[Fotografia da minha autoria]
 
A primeira metade do livro centra-se nestes aspectos, envolvendo também os políticos e a forma como eles têm de lidar imediatamente com esta situação de calamidade.
 
Sensivelmente a meio do livro há uma parte um pouco monótona e que me custou a ler. Pensei que o problema fosse meu (uma vez que tenho por hábito ler à noite e senti dificuldades em concentrar-me na escrita de Saramago) porém, após ler algumas opiniões, descobri que outros leitores relataram a mesma dificuldade. Há, de facto, uns capítulos mais chatos, mas vale totalmente a pena fazer um esforço e prosseguir até à segunda metade do livro.

Aqui surge uma personagem nova: a morte (que insiste em que o seu nome seja escrito com letra minúscula). Foi delicioso de se ler! Há muito humor, muita ironia, a forma magnífica como o autor fala da morte, nos mostra como ela é e como se comporta, até que, pouco a pouco, a vai tornando mais humana. O final é incrível e eu fiquei completamente embasbacada a olhar para o livro, sem saber como o interpretar. Comecei a formular teorias na minha cabeça mas ainda sinto necessidade de discutir aquele final com outros leitores.

Se leste este livro, partilha comigo os teus pensamentos em relação ao final!

Sem dúvida que tenciono continuar a explorar o mundo que Saramago nos deixou e só me arrependo de não ter começado mais cedo.

Classificação: 4/5 estrelas

terça-feira, 17 de novembro de 2020

"Os Passageiros" de John Marrs [Opinião]


«Todo o enredo é plausível e iminente... John Marrs tece o seu conto vertiginoso com uma sátira deliciosa e mordaz.»
The Washington Post
 
A premissa deste livro é soberba! Num futuro próximo, os carros com condutor são substituídos por carros autónomos considerados muito seguros. Os veículos de nível superior fazem tudo, não necessitam de qualquer atenção humana e não têm travões manuais nem volante.

Parece incrível, não é?
Este livro vai então retratar a parte negativa do avanço da tecnologia. Se o nosso carro é totalmente autónomo, o que aconteceria se um pirata informático se apoderasse do seu sistema operativo?
Em Os Passageiros, um Hacker assume o controlo de oito carros, altera o destino no GPS e avisa os seus ocupantes que irão morrer dentro de poucas horas.
 
A Comissão que avalia acidentes com este tipo de veículos desta vez vai ter um desafio bem diferente: terá de entrevistar cada um dos passageiros e decidir qual deles salvar. Tudo isto enquanto o acontecimento é transmitido mundialmente através das redes sociais.

Este livro aborda a temática das primeiras impressões, que muitas vezes determinam aquilo que pensamos acerca de alguém. Será justo avaliar uma pessoa através da primeira impressão que ela nos causa?
O que achei interessante neste livro é que nos dá uma primeira má impressão de cada um dos passageiros, o que nos leva de imediato a detestá-los. A certa altura, os seus segredos eram tão graves que senti que não seria capaz de escolher nenhum deles e não me importaria se morressem todos. Posteriormente, é-nos dada a conhecer a outra face de cada história, as circunstâncias de vida que explicam os segredos de cada um deles. Passei de querer vê-los mortos a querer salvá-los, uma vez que já compreendia, já conseguia sentir empatia por eles.

[Fotografia da minha autoria]

O livro é muito dinâmico, será uma leitura imparável para uma tarde. Os capítulos curtos e a tensão quase constante levam a leitor a querer ler sempre mais. O autor construiu uma narrativa repleta de adrenalina que conquistará os fãs de leituras mais enérgicas. O final, por sua vez, é calmo, embora me tenha deixado um sorriso maquiavélico nos lábios.

Posso ainda referir que o livro tem uma escrita muito cinematográfica, acredito que daria um ótimo filme. À medida que ia lendo, conseguia facilmente imaginar todas as cenas, momentos de ação e pontos altos da história. Não ficarei espantada se no futuro ouvir falar de uma adaptação deste livro para o cinema, uma vez que tem todos os ingredientes para resultar.

O autor fez ainda referência ao seu outro livro - Almas Gémeas - que ainda não li, mas que já entrou na minha lista de livros desejados.
Foi uma estreia surpreendente com John Marrs e vou certamente ficar atenta a novos trabalhos seus que sejam publicados em Portugal.

Classificação: 4/5 estrelas

sábado, 14 de novembro de 2020

"O Regresso" de Nicholas Sparks [Opinião]


Nicholas Sparks foi um dos primeiros autores que li na adolescência durante a minha transição das histórias juvenis para os romances dirigidos a adultos, sendo por isso um autor pelo qual nutro bastante carinho. Admito, contudo, que atualmente já não sinto o mesmo fascínio pelas suas histórias, embora continue a gostar de conhecer os seus novos trabalhos.

Este romance apresenta-nos Trevor Benson, um médico que ficou gravemente ferido no seguimento de uma explosão junto ao hospital onde trabalhava, no Afeganistão. Decide então ir recuperar para a velha casa que herdou do avô.

Naquela pequena localidade, ele conhece Natalie, a delegada do xerife, e uma química nasce entre ambos. No entanto, Natalie mantém uma distância inexplicável, é evasiva e Trevor admite que ela possa estar a esconder alguma coisa.

Ao mesmo tempo, Trevor anda também a tentar descobrir o que aconteceu com o avô antes de ele falecer, uma vez que a sua morte está envolta em alguma estranheza.

Existe ainda Callie, uma adolescente que parecia manter uma relação de amizade com o seu avô. Contudo, ela mostra-se igualmente reservada e Trevor não consegue sequer manter uma conversa com ela.

 
[Fotografia da minha autoria] 

Assim, temos uma parte inicial onde as personagens interagem e se conhecem, tendo sido a parte que considerei mais monótona, embora tenha adorado a personalidade de Trevor e as suas tentativas para conhecer melhor Natalie.
A segunda parte do livro torna-se mais apelativa e iremos descobrir os segredos de Natalie, Callie e do avô de Trevor, e como as suas vidas se interligam. O livro oferece então um mistério para desvendar, levando a uma leitura bastante mais dinâmica.

O Regresso não é um daqueles romances arrebatadores e devastadores, como outros que o autor já escreveu. Considero, sobretudo, que é um livro muito bonito, com uma mensagem de esperança. Fala-nos do verdadeiro significado do amor e do perdão. Mostra-nos que amar verdadeiramente alguém poderá significar deixar essa pessoa ir, seguir a sua vida, por muito que nos possa doer.

É um romance que poderá fazer-vos soltar uma lágrima teimosa, mas, no final, é uma história que nos aquece o coração e nos oferece alguma esperança, algo que até nos faz falta nos tempos que correm.

Gostaria de deixar um apontamento final de agrado pela edição dinâmica e interativa que este livro nos oferece, ou seja, ao longo do livro vamos encontrar três QR Codes com vídeos do autor com uma mensagem para os leitores! Gostei imenso!

Classificação: 4/5 estrelas

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"Uma Mulher em Fuga" de Lesley Pearse [Opinião]


Lesley Pearse escreve sobre mulheres. Mulheres fortes e resilientes, capazes de enfrentar com coragem as situações mais difíceis.

Esta é a história de Rosie, uma criança negligenciada pelo pai e sujeita aos maus-tratos por parte dos irmãos mais velhos. Sem uma mãe para a proteger, um dia ela descobre uma terrível verdade acerca do pai e é obrigada a fugir, na tentativa de dar um rumo novo à sua vida.

Rosie é ajudada por uma assistente social e acaba por ir trabalhar para um hospital psiquiátrico. É neste local que se centra uma grande parte da ação do livro.
Os vários capítulos decorridos no hospital são extremamente duros. Há descrições terríveis de como os doentes eram tratados e houve um capítulo em particular que me deixou verdadeiramente agoniada com o tratamento que eles recebiam. Acredito que a autora tenha feito pesquisa e que muito do que aqui é retratado poderá ter sido verdadeiro na época em que decorre esta história.

Achei curioso a quantidade de personagens más e mesquinhas que encontrei neste livro. Há outros livros da autora em que as personagens passam por muitas desgraças, mas neste livro Rosie cruza-se com tantas personagens que a querem prejudicar que cheguei a pensar que a autora tinha reunido num só livro todas as personagens mesquinhas que foi capaz de construir.
Mas, apesar de tudo, Rosie é uma jovem de verdadeira fibra e consegue enfrentar com coragem e determinação todas as provações que a vida lhe dá, conseguindo até construir uma carreira de sucesso para si própria.
 
[Fotografia da minha autoria]
 
Antes de o livro terminar, ainda temos uma pequena parte thriller, uma vez que Rosie é perseguida pelo seu irmão Seth, um homem completamente repugnante e que não descansa enquanto não obtiver vingança. Este momento de clímax acabou por não corresponder às minhas expectativas. Achei pouco, foi apenas um breve episódio descrito num pequeno capítulo e que passou muito depressa.
 
No fim, temos ainda uma boa descrição de como ficou a vida de Rosie dali para a frente. O final do livro é um pouco cliché mas era o esperado. Rosie sofreu muito e acabou por ser gratificante ler um final feliz, um final repleto de amor e esperança para esta personagem.

Penso que os romances de Lesley Pearse ainda provocam algum preconceito nos leitores. Os títulos portugueses e as capas são um pouco romantizados e, ainda por cima, são vendidos dentro de saquinhos super amorosos, levando muitos leitores a acreditar que se trata de histórias cor-de-rosa. Não é verdade. Lesley aborda quase sempre temas duros, desconcertantes. Posso afirmar que, de todos os livros que já li da autora, em nenhum encontrei uma história lamechas.

Não sendo este um dos meus romances preferidos da autora, não deixo de o recomendar a quem já é fã ou aos leitores sintam curiosidade em experimentar.

Classificação: 4/5 estrelas

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

"Má" de Chloé Esposito [Opinião]


«Sexo, drogas e uma sede de sangue que nunca é satisfeita. Alvina é uma personagem que não esquecemos depressa: engraçada, com garra, fabulosa... os leitores vão chorar pelo próximo livro.»
Booklist
 
Má é a continuação do Louca, livros pertencentes a uma série cuja personagem principal é a Alvina Knightly. No primeiro volume, vemo-la a apoderar-se da vida da irmã gémea, quando esta morre acidentalmente. Depois de roubar a vida que queria, neste segundo volume surgem novos contratempos e novos perigos que ela terá de enfrentar.

Como referi, trata-se de uma trilogia (o terceiro ainda não está publicado em Portugal) e recomendo vivamente que leias os livros por ordem, caso contrário não irás perceber nada deste segundo volume.

Eu tinha adorado o sentido de humor desta personagem; ela é completamente tresloucada, diz e faz tudo sem qualquer censura. Tinha referido também que poderá não ser um livro para todos os leitores e continuo a manter essa opinião neste segundo volume: se não tens paciência para uma personagem maluca e cheia de sarcasmo, provavelmente não irás gostar da Alvie.

[Fotografia da minha autoria] 

Neste romance, Alvie acorda no Ritz (um hotel londrino), com a maior ressaca de sempre, e descobre que o seu novo namorado fugiu com todo o dinheiro que haviam roubado à sua irmã gémea. Sedenta de vingança, Alvie vai iniciar uma busca intensa para o encontrar. Está disposta a matá-lo ou a morrer a tentar.

Mas Alvie faz estragos por onde quer que passe e é por isso que este livro continua tão hilariante como o primeiro, repleto de peripécias, situações hilariantes e que deixam o leitor a rir às gargalhadas. Admiro muito a imaginação da autora e a capacidade de criar uma personagem como esta!

O final foi inesperado e deixou-me uma sensação levemente agridoce. Fiquei com alguma pena do que aconteceu, mas compreendi perfeitamente que aquilo tinha de acontecer para que a história possa continuar. Afinal, ainda haverá mais um livro e a Alvina precisa de se meter em novos sarilhos antes de nos ser dado a conhecer o seu final.

É um livro ótimo para ler numa só tarde. Prometo gargalhadas, boa disposição e, claro, uma vontade enorme de ter rapidamente nas mãos o terceiro volume!

Classificação: 4/5 estrelas

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

"Anna e o Beijo Francês" de Stephanie Perkins [Opinião]


«Mágico. Anna e o Beijo Francês capta realmente a sensação de estar apaixonado.»
Cassandra Clare

Anna e o Beijo Francês é um young-adult para os leitores mais românticos.
 
A narrativa centra-se em Anna, uma jovem cheia de planos para o seu último ano no liceu em Atlanta. Contudo, o seu pai decide trocar-lhe as voltas e enviá-la para um colégio interno em Paris. Apesar das dificuldades iniciais, Anna rapidamente faz amigos e conhece Étienne – um rapaz deslumbrante… e com namorada.

A primeira coisa em que reparei acerca deste livro é que tem uma narrativa extremamente bem-disposta. A linguagem é cativante, soltei imensas gargalhadas com as peripécias das personagens e senti-me bem animada durante toda a leitura. É como se o livro me tivesse trazido alguns raios de sol em dias por vezes muito nublados.

A autora consegue captar muito bem as dificuldades que um jovem sentiria ao mudar-se, de repente, sozinho para outro país: a necessidade de fazer novos amigos, o choque cultural, a barreira linguística, uma cidade completamente desconhecida. Algumas situações são caricatas exatamente porque parecem exageradas, mas será que não é mesmo assim quando nos sentimos inseguros?

[Fotografia da minha autoria]

Confesso que habitualmente não tenho paciência para livros com personagens adolescentes, por não me identificar com esta faixa etária. Não digo que a história não possa cativar-me mas acabo por preferir personagens com idade aproximada à minha.
No entanto, este livro encantou-me! Adorei a Anna e o Étienne e a forma como a relação de ambos se foi tornando mais profunda. Há alguns dramas de adolescentes, mas nada demasiado exagerado. Achei as personagens bem construídas, reais e, por isso, credíveis.

Li algumas opiniões em que os leitores referiram a enorme vontade de conhecer Paris, depois da leitura deste livro. E eu senti exatamente o mesmo! A autora leva-nos a passear por imensos locais de Paris, permite-nos ver a cidade através dos olhos de alguém que a vê pela primeira vez e faz crescer a nossa curiosidade em relação a esta cidade tão romântica.
 
Um aspeto curioso acerca deste livro é que ele nasceu no National Novel Writing Month, uma espécie de competição anual originária dos EUA mas que reúne participantes de todo o mundo, juntos pelo mesmo objetivo: escrever um romance de 50 mil palavras, no mês de novembro.
Eu já participei em dois anos e posso afirmar que é um evento muito motivador, que nos encoraja a escrever e a desenvolver uma rotina de escrita. Por isso, agrada-me imenso descobrir livros publicados, cujo primeiro rascunho nasceu neste evento.
 
Anna e o Beijo Francês é uma história repleta de ternura e simplicidade, capaz de apaixonar o leitor e deixá-lo com um sorriso nos lábios… e talvez uma lagrimazinha no canto do olho. É o livro ideal para passar um bom momento e intercalar com leituras mais exigentes.

Classificação: 4/5 estrelas

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

"A Única Filha" de Anna Snoekstra [Opinião]


«Uma trama vertiginosa e repleta de reviravoltas que fará com que qualquer fã de thrillers não consiga parar de ler.»
Booklist
 
A ideia deste livro é muito interessante. Rebecca Winter, uma adolescente de 16 anos, desapareceu. Onze anos depois, uma mulher muito parecida com ela afirma ser Rebecca, conseguindo convencer toda a gente. Contudo, ao retomar a vida da jovem, começa também a perceber que algo naquela família não está bem e que ela própria poderá correr perigo.

Senti-me cativada logo nas primeiras páginas. A nossa personagem vê-se numa situação complicada e, para evitar ser presa, assume a identidade de uma rapariga desaparecida. Apesar de saber que ela não passa de uma impostora, acabei por sentir uma certa simpatia e por torcer por ela em todas as situações. Afinal, não era nada fácil ser evasiva com os inspetores que queriam a todo o custo descobrir o responsável pelo seu rapto. Ou tentar convencer a família e os amigos sem conhecer absolutamente nada da vida passada de Rebecca.
Ao mesmo tempo, sente curiosidade em descobrir o que aconteceu à verdadeira Rebecca, o que acabará por fazê-la sentir-se insegura dentro daquela casa.

[Fotografia da minha autoria]

O comportamento estranho da família dela - pais e irmãos gémeos - fez-me desconfiar logo nas primeiras páginas. Sem referir as razões da minha desconfiança, posso afirmar que desde muito cedo formulei uma teoria. Tinha quase a certeza do que teria acontecido (ou então queria desesperadamente encontrar um livro em que fosse capaz de desvendar o final). Mas a autora surpreendeu-me! Andei lá perto, mas acabei por ficar bastante impressionada com os acontecimentos finais.

A narrativa vai alternando entre o presente (relatado na primeira pessoa) e o passado (contado na terceira pessoa). Senti muito mais interesse pela trama do presente, uma vez que é aqui que nos são dadas informações acerca da impostora e nos é permitido ver como ela manipula os outros.

No geral, este é um thriller satisfatório, que se lê bastante rápido. Não é uma história soberba, uma vez que certos acontecimentos teriam beneficiado de um pouco mais de desenvolvimento, mas será uma boa escolha para intercalar com leituras mais pesadas e difíceis.
Um ponto positivo é o facto de abordar a temática da troca de identidade, que ainda não encontrei muito na ficção e que terá sido o motivo que chamou a minha atenção no momento em que comprei o livro.

Classificação: 3/5 estrelas

sábado, 26 de setembro de 2020

"O Predador da Noite" de Chris Carter [Opinião]


«Não dá para parar de ler.»
Express
 
O Predador da Noite é o terceiro livro da série policial Robert Hunter e o quarto trabalho do autor que tenho oportunidade de ler.
Chris Carter é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores autores contemporâneos dentro do género policial. Os seus livros são dos mais macabros que já li, inquietantes e de leitura compulsiva.

Desta vez, Robert Hunter e o seu parceiro Carlos Garcia, da Unidade Especial de Homicídios, vão ter em mãos um dos crimes mais hediondos que se possa imaginar. A vítima do sexo feminino não apresenta qualquer marca de maus tratos, exceto o pormenor de a boca e as partes íntimas terem sido cosidas. E, para surpresa de todos, o assassino deixou um objeto dentro da vítima.

Este livro começa de forma explosiva! É impossível refrear a curiosidade e permanecer indiferente a um início destes. Um pormenor que eu adoro nos livros deste autor é a sua capacidade de terminar quase todos os capítulos com suspense. Isto, aliado aos capítulos pequenos, não dá qualquer descanso ao leitor, que muito dificilmente vai ser capaz de largar o livro.

[Fotografia da minha autoria]

A cada novo livro, o autor consegue também superar-se no tipo de crimes, na sua descrição, nas motivações do assassino. O que mais me fascinou neste livro foi o objeto que o assassino colocava dentro de cada vítima e, mais tarde, descobrir o porquê de ter sido escolhido aquele objeto aterrador em particular.

Um outro aspeto que me agradou imenso foi o aparecimento de Whitney Meyes, uma investigadora privada cuja investigação se cruza com a de Robert Hunter. Gostei desta personagem e da dinâmica que se formou entre ela e Robert. Embora ela tenha desempenhado um papel importante neste livro, acabei por ficar com pena de não a ter conhecido melhor. Creio que a Whitney merecia um destaque maior, talvez alguns capítulos extra.

O final do livro foi arrebatador, o que não é de espantar, tendo em conta os vários trabalhos que já li do autor. Li as últimas cem páginas quase de uma vez e, quando tive de interromper para almoçar, sentia-me nervosa, inquieta, com o coração a palpitar de ansiedade. E só me senti melhor quando cheguei à última página e desvendei todo o mistério. Quem é que disse que os livros são relaxantes?

Chris Carter é um autor obrigatório para os fãs de literatura policial contemporânea. De que estás à espera para o conhecer?

Classificação: 5/5 estrelas

terça-feira, 8 de setembro de 2020

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" de José Saramago [Opinião]


Ler José Saramago foi uma forma de me desafiar. Sempre me senti um pouco envergonhada enquanto leitora por me ter mantido tão resistente a ler as obras deste autor. Concordo que devemos ler aquilo que nos dá prazer,  não interessando se algumas dessas leituras são mais fáceis; contudo, acredito que é enriquecedor sair da nossa zona de conforto e ler algo mais desafiante.

Deste autor, ainda só tinha lido o Claraboia — um dos seus primeiros trabalhos escritos e que surgiu antes de ele desenvolver o seu estilo — e O Conto da Ilha Desconhecida — um pequeno conto que me deu um cheirinho da sensibilidade da sua escrita.

Confesso que sempre embirrei um pouco com o autor e não foi por minha culpa. Quando estava na universidade, tive um professor de Literatura que, certa vez, nos trouxe um excerto de um livro de Saramago para fazermos um exercício de pontuação. Acredito que o professor não pretendia desencorajar-nos de ler o autor mas desde aí que cresceu em mim esta embirração injustificada.
 
Na verdade, Saramago utiliza pontuação nos seus trabalhos. Socorre-se unicamente da vírgula e do ponto final e, na verdade, nada mais é necessário. Após alguma estranheza e dificuldade inicial, a leitura flui muito melhor e o leitor é capaz de entender tudo o que lê e retirar prazer da leitura.

[Fotografia da minha autoria] 

Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o autor apresenta-nos a sua visão de como poderia ter sido a vida de Jesus. Ao longo destas páginas, vamos acompanhando diversos episódios bíblicos nossos conhecidos, contudo, eles apresentam um carácter mais humano e menos divino. As personagens demonstram todo o tipo de emoções humanas, como a alegria e a tristeza, a culpa e o remorso.
Neste livro, Deus é arrogante e pouco bondoso, sendo mais adepto de guerras e sofrimento.

Enquanto lia este livro senti imensa vontade de consultar a Bíblia, de forma a comparar o que está escrito nos evangelhos com o que o autor nos apresenta neste romance. Quanto do que lemos neste livro partirá da imaginação do autor?

A leitura acabou por ser mais agradável do que eu esperava e digo-vos, ainda bem que continuei a insistir comigo mesma e me desafiei a finalmente pegar neste livro. Estou muito surpreendida e desejosa de explorar um novo trabalho do autor.

Qual o teu livro preferido de Saramago? E qual me recomendas para ler a seguir?

Classificação: 4/5 estrelas

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

"Escrito na Água" de Paula Hawkins [Opinião]

 
De vez em quando surge um autor que causa um burburinho gigantesco com o lançamento de um dos seus livros. Foi o que sucedeu com A Rapariga no Comboio, em 2015, que recebeu uma campanha publicitária incrível e que eu tive oportunidade de ler ainda antes do lançamento. Tal como referi na minha opinião, acabei por não achar o thriller assim tão alucinante como eu esperava.
 
O segundo romance da autora, Escrito na Água, veio envolto no mesmo burburinho. Decidi lê-lo este ano, embora sem criar expectativas elevadas.

Esta história conduz-nos até uma pequena localidade, onde um rio já tirou a vida a demasiadas mulheres ao longo dos tempos. Nel vivia obcecada com essas mortes e estava determinada a encontrar respostas. Contudo, agora é ela que aparece morta.
Será a sua irmã, Jules, quem terá de enfrentar terríveis recordações do passado, de forma a descobrir o que realmente aconteceu com Nel.

Não sei muito bem o que se passou entre mim e este livro. Demorei imenso a sentir-me cativada e precisei de insistir comigo mesma para continuar a ler, até chegar a um momento em que o próprio mistério foi o suficiente para manter a minha atenção até ao fim.

[Fotografia da minha autoria]
 
No livro anterior, a autora contou a história na perspetiva de três personagens. Aqui, temos o ponto de vista de nove ou dez personagens, alternando também entre a primeira e a terceira pessoas. Por um lado, resultou muito bem, pois foi possível ver como várias personagens reagiam a uma mesma situação. Contudo, por outro lado, achei esta constante mudança muito confusa. No início ainda não sabia quem era quem e, mais tarde, quando já reconhecia as personagens, sentia que continuava a precisar de um enorme esforço mental só para me situar com tantos saltos de personagens.

Talvez este não tenha sido o meu único problema com o livro. No geral, pareceu-me muito parado, com quase nenhuma ação. Não é que este aspeto seja mau de todo, uma vez que o livro se centra sobretudo nas memórias das personagens, nas recordações cinzentas do seu passado. Eu, como leitora, é que tenho uma especial preferência por thrillers mexidos, que me ofereçam adrenalina ao virar de cada página.

Devo reconhecer, no entanto, que a autora trabalhou muito bem as emoções das personagens, os instintos humanos e o medo de voltar a enfrentar os fantasmas do passado.
Gostei igualmente de toda aquela espécie de misticismo que envolvia o rio, como se ele fosse um pouco uma entidade sobrenatural com vontade própria.

Embora este thriller não me tenha fascinado, vou certamente ficar atenta a futuros trabalhos da autora.

Classificação: 3/5 estrelas

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

"Por Amor à Língua" de Manuel Monteiro [Opinião]


Este livro despertou a minha curiosidade desde que foi publicado. Estava na minha lista de desejos e, finalmente, este ano surgiu a oportunidade de o adquirir.

Gosto imenso de aprender tudo o que posso sobre a Língua Portuguesa. Tento informar-me, pesquisar, estar a par de todas as mudanças, uma vez que costumo escrever bastante, bem como realizar alguns trabalhos de revisão de texto.

Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro, é um livro repleto de ensinamentos e devo dizer que me abriu os olhos para muitos aspetos da língua e da gramática. Este autor já trabalhou durante alguns anos como revisor para diversas editoras e fiquei surpreendida com o seu conhecimento.

Este livro (cuja capa eu considero ser bastante apelativa) encontra-se estruturado em dez capítulos.
 
O primeiro aborda a utilização excessiva do pleonasmo na linguagem escrita e falada, muito raramente utilizado com intenção e originalidade. O autor recorre a inúmeros exemplos, sendo um deles o «Há duas horas atrás» ou «Há um ano atrás». Quantas vezes não ouvimos esta expressão na televisão, usada pelas mais diversas figuras públicas? E quantas vezes não usamos esta expressão na oralidade, sem notarmos que estamos a cair num pleonasmo? Para escrevermos corretamente, não devemos usar o «há» com o «atrás».

No segundo capítulo, o autor fala sobre adjetivos, explicando os perigos da sua utilização constante. Dentro desses perigos estão os lugares-comuns, ou clichés, dos quais é importante fugir sempre que possível.

O capítulo que se segue aborda a eufonia, ou seja, a relação entre as palavras e a música, a harmonia resultante da junção de vários sons. O autor alerta para a importância de se estar atento à utilização excessiva de «ques» e de pronomes.

O quarto capítulo aborda um pouco o discurso direto, a forma como as personagens falam, a presença do narrador e a importância de se ter cuidado com a pontuação.

No capítulo seguinte o autor apresenta uma breve reflexão sobre a utilização de palavras caras e a importância de se cultivar a diversidade vocabular.

O capítulo sexto convida-nos a refletir acerca da utilização imparcial das palavras nos textos informativos e das palavras estrangeiras. Cada vez mais, vemo-nos rodeados de estrangeirismos que utilizamos no nosso dia a dia, alguns dos quais já passaram a estar incluídos nos dicionários. Muitos poderão ser da opinião de que as palavras estrangeiras tornam a nossa língua mais rica, mas o autor não concorda com este ponto de vista e explica porquê.

O sétimo capítulo foi um dos que achei mais interessantes. Aqui, o autor aborda as palavras e expressões ubíquas, isto é, as palavras que estão em todo o lado e que utilizamos a toda a hora, por familiaridade. Alguns exemplos são o «aperceber-se», o «a partir de», o «evento» (uma palavra que está na moda usar-se para quase tudo), «o facto de», «líder» (um anglicismo que também se usa para quase tudo), o «eventualmente» (palavra que usamos com o significado errado), entre outras.

O capítulo oitavo é igualmente muito interessante, uma vez que dá voz à pessoa desaparecida, ou seja, aos erros gramaticais que cometemos com a segunda pessoa do plural: vós, vosso, vossa, convosco. Foi um dos capítulos que mais me deixou boquiaberta, uma vez que eu própria também cometo muitos desses erros, por familiaridade e porque é um erro muito comum na oralidade.

O penúltimo capítulo é o mais longo. Aborda o Acordo Ortográfico e apresenta um conjunto de textos que o autor escreveu para diversos jornais e que, posteriormente, compilou neste livro. Achei alguns dos textos um pouco repetitivos, dado que abordam os mesmos assuntos, mas não deixam de ser uma leitura que nos faz refletir acerca do tremendo disparate que é o Acordo Ortográfico e das confusões que ele veio gerar.
Eu utilizo o Acordo Ortográfico no meu dia a dia porque, quando estava a escrever a minha tese de Mestrado, passou a ser obrigatório e tive de me adaptar. Mas não gosto, acho-o confuso e o autor explica imensas vezes que os próprios criadores do Acordo não se entendem, bem como os dicionários.

Por fim, um pequeno capítulo final que me agradou imenso e onde o autor conta algumas histórias da revisão. Elas ajudam-nos a perceber a importância fundamental do trabalho do revisor, a quem nem sempre reconhecemos o devido valor. Por vezes, encontramos erros e/ou gralhas nos livros e temos tendência de imediato a culpar o revisor. O autor explica que é muito raro a culpa ser do revisor: muitas vezes pode ser o paginador que mexe sem aviso, pode haver sobreposição de ficheiros ou outros desastres tecnológicos, o revisor raramente recebe as últimas provas e, nos dias de hoje, há imensa pressa em ter os trabalhos prontos.

Em conclusão, este é um livro muito crítico, com um tom bastante mordaz, mas extremamente útil e informativo. Está bem estruturado, repleto de exemplos e bem fundamentado, ou seja, o autor não se limita a dizer o que está mal e errado, ele explica de forma convincente as razões por que devemos abandonar alguns dos nossos vícios e usar com mais cuidado a nossa língua. É, na minha opinião, um livro fundamental para professores, escritores, revisores e quem trabalha com a palavra escrita.

Classificação: 4/5 estrelas

domingo, 16 de agosto de 2020

"As Filhas de Eva" de Louise O'Neill [Opinião]

 
«É um livro perspicaz e inquietante. [...] O'Neill incita-nos a refletir sobre a nossa própria sociedade, uma sociedade que promove 'corpos descarnados e rostos sem feições' como exemplos máximos de perfeição e beleza»
The Telegraph

As Filhas de Eva tem sido um livro muito falado na comunidade do Instagram. Despertou a minha curiosidade por se tratar de uma distopia que faz também uma crítica à sociedade atual. Além disso, como estava esgotado em todo o lado, tornou-se um objeto de grande procura e tenho de confessar que acho desafiante vasculhar a internet em busca de um exemplar de um livro esgotado. Acabei por encontrar um no OLX, em segunda mão, e comprei-o de imediato!

Comecei a lê-lo alguns dias depois, com as expectativas relativamente elevadas e posso afirmar que não me senti defraudada. Foi uma leitura muito diferente do que tenho lido tanto ultimamente como em comparação com outras distopias que já li. 

Em As Filhas de Eva, as raparigas não nascem de forma natural, são desenhadas nos mais rigorosos critérios da perfeição e passam toda a sua vida numa Escola, onde aprendem as artes de satisfazer os homens. A sua finalidade é tornarem-se Companheiras, sendo-lhes permitido viver com o marido e gerar filhos. Aquelas que não conseguirem tornar-se-ão Concubinas ou Castidades (estas últimas são as professoras da Escola, a quem é removido o útero, por já não ser necessário).

Se esta pequena introdução já se afigura bem intrigante, imaginai o que será entrar nesta leitura. Tudo neste livro é completamente bizarro, absurdo e revoltante de se ler.

Por vezes, as personagens adolescentes com quem me cruzo nos livros são demasiado dramáticas para o meu gosto. Nem todos os livros sobre adolescentes me conseguem cativar pois já não me identifico muito com esta faixa etária. Este livro deixou-me completamente exasperada com os comportamentos fúteis destas jovens, que pensavam unicamente em maquilhagem, em roupa e em contar todas as calorias daquilo que comiam.

Claro que estes comportamentos são os esperados nesta Escola que pretende formar as melhores alunas para se tornarem esposas dos Herdeiros. Mesmo assim, é repugnante ver toda a malícia e competição que existe entre as jovens. São egoístas e mesquinhas umas com as outras. Todas as semanas são avaliadas e recebem uma nota consoante o seu peso e os seus padrões de beleza, o que significa que existe ali um ambiente de competição constante.
Estas jovens não aprendem sequer a ler, porque não se espera que as mulheres sejam inteligentes. Elas devem ser submissas e obedientes aos homens. Se alguma delas quisesse ver o Canal da Natureza, tinha de o fazer às escondidas; contudo, têm à sua disposição canais para assistir a reality-shows.

[Fotografia da minha autoria]

A história é-nos narrada no ponto de vista de freida, uma aluna do último ano. Escrevo o seu nome com inicial minúscula pois é assim que todos os nomes das mulheres são escritos no livro. Este foi um pormenor que achei interessante no mundo que a autora criou: as mulheres são tão insignificantes, tão inúteis, tão rebaixadas, que nem o seu nome próprio é digno de uma inicial maiúscula, ao contrário do que acontece com os nomes dos homens.

Freida deu-me uma certa pena logo desde os primeiros capítulos. Pareceu-me extremamente deprimida pois a sua melhor amiga — isabel — uma das jovens mais populares, de um momento para o outro, afastou-se dela sem qualquer explicação. E, pior ainda, começou a engordar — o comportamento mais impensável e indesejável nesta Escola. Freida vai viver momentos angustiantes enquanto tenta, de todas as formas, juntar-se às mais populares da turma e ser novamente aceite.

Confesso que o início do livro não estava a conseguir cativar-me. A ação decorre mais lentamente, à medida que nos vão sendo explicadas todas as dinâmicas da Escola. Não era que não estivesse a gostar mas, como lia pouco por dia, ficava a sentir que tudo decorria em volta de maquilhagem, roupa e calorias, o que me começou a irritar. Posteriormente, tive uma tarde em que consegui adiantar a leitura e vi-me completamente viciada. Não consegui descansar enquanto não descobri como tudo terminava.

Este é um livro revoltante, com um mundo extremamente bem construído e que aborda temas muito pertinentes, como a pressão dos pares, o papel da mulher, a procura constante por aceitação. Apresenta uma forte crítica à sociedade em que vivemos, que ainda dá muita importância ao aspeto e ao comportamento das mulheres. É certo que tudo o que está no livro pode parecer exagerado, mas muitos destes comportamentos são ainda perpetuados pelas jovens de hoje em dia.
 
Uma leitura que recomendo a todos os que tiverem curiosidade pelo tema e principalmente aos jovens. É um livro importante e que nos faz pensar.

Classificação: 4/5 estrelas

sábado, 8 de agosto de 2020

"A Paciente Silenciosa" de Alex Michaelides [Opinião]

 
«Impossível parar de ler, profundamente impressionante e intenso, com uma imprevisibilidade tal que mesmo o leitor mais familiarizado com livros de suspense sentirá suores frios.»
Booklist

Este thriller despertou a minha curiosidade no momento em que foi lançado em Portugal. O mistério de uma personagem que mata o marido e nunca mais diz uma palavra encheu-me de imediato as medidas.

Alicia Berenson tem tudo para ser feliz. É uma pintora jovem e famosa, vive numa casa sublime com o marido, Gabriel, um fotógrafo de moda. Uma noite, quando ele chega a casa, ela mata-o com cinco tiros e nunca mais diz uma palavra.

A sua recusa em falar transforma-se num mistério para a comunicação social. E para o leitor, claro!

O que aconteceu realmente naquela noite? Por que razão Alicia assassinou o marido? E por que razão se recusa a falar?

Passados seis anos, Theo Faber entra em cena. É um psicoterapeuta curioso pelo caso e que há muito desejava trabalhar com esta paciente. Está determinado em fazê-la falar e conseguir, por fim, desvendar todo este misterioso assassínio.

Não sabia muito bem o que esperar deste livro mas devo confessar que não esperava que a história se centrasse tanto em Theo. É ele quem nos conta toda a história de Alicia e é na sua perspectiva que acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos desde que ele chega à clínica.
De Alicia vamos tendo alguns vislumbres através de um diário que ela foi escrevendo algum tempo antes da data do crime.

A primeira metade do livro não é propriamente empolgante. A história desenvolve-se a um ritmo mais lento e é ainda muito cedo para desvendar o mistério. Contudo, a nossa curiosidade mantém-se e garanto-vos que o livro cumpre o que promete na premissa.

A terapia acaba por ter um papel menos relevante na história e é como se tivesse sido moldada para se enquadrar nos propósitos do autor.

[Fotografia da minha autoria]
 
Theo é uma daquelas personagens com quem formamos uma empatia um pouco estranha. À medida que vamos tendo conhecimento da sua tragédia pessoal, vamos percebendo que ele é um homem cheio de fantasmas, ainda com alturas da sua vida em que se sente muito inseguro e fragilizado. Está a passar por problemas no casamento, porém, a forma como se comporta também não é das melhores.
Em variadas alturas cheguei a pensar que ele não era a pessoa ideal para tratar Alicia e que ele próprio também deveria estar internado. Acredito que, quando todo o livro se passa numa clínica psiquiátrica, seja difícil manter a sanidade!

O autor soube dosear muito bem o suspense ao longo de toda a narrativa. Nada neste livro é o que parece e chegamos até a duvidar da culpabilidade de Alicia, uma vez que ela estava rodeada de gente estranha: um cunhado assustador, um primo mentiroso e um ganancioso dono de uma galeria de arte. Ou seja, todos teriam motivos legítimos para assassinar Gabriel e culpar Alicia.

O final do livro é completamente imprevisível. Aquele parágrafo final, a alguns capítulos do fim, é como levar uma bofetada. É um balde de água fria que nos cai em cima. É a reviravolta alucinante que nos permite compreender de imediato tudo o que não fomos capazes de ver ao longo do livro.
Já li muitos thrillers, estou familiarizada com este género que adoro e posso afirmar que esta terá sido uma das melhores reviravoltas finais que encontrei neste género de livros. Incrível!

Se ficaram curiosos, leiam! Desafio-vos a tentar desvendar o mistério antes de este vos ser revelado. 

Alex Michaelides é um autor que pretendo continuar a acompanhar. A Paciente Silenciosa é a sua obra de estreia e mal posso esperar por ter nas mãos mais livros deste autor!

Classificação: 4/5 estrelas

sábado, 1 de agosto de 2020

"Vidas Adiadas" de Dorothy Koomson [Opinião]


Vidas Adiadas é o mais recente trabalho de Dorothy Koomson. Dez anos depois, ela regressa com Poppy e Serena, as protagonistas de Um Erro Inocente.

Tratando-se de uma sequela, é fundamental que leiam o Um Erro Incente para conhecerem toda a história das Meninas do Gelado e poderem tirar o melhor proveito deste novo romance.

Eu li-o em 2015 e, uma vez que guardava poucas recordações e não queria estar a lê-lo de novo, encontrei uma leitora no instagram que o leu recentemente e se dispôs a fazer-me um pequeno resumo do final do livro e de como tinha ficado a vida das personagens.
Isso ajudou-me bastante a entrar na história. Além disso, há neste livro imensas referências ao livro anterior, pelo que a nossa memória está constantemente a ser refrescada.

Ler Vidas Adiadas foi o reencontro com duas personagens muito queridas. Poppy e Serena passaram por verdadeiros tormentos e adorei ver como prosseguiram as suas vidas dez anos após os acontecimentos do primeiro livro.

Além das perspectivas de Poppy e Serena, este livro traz-nos uma nova personagem principal: Verity, a filha de Serena. Assim, temos uma narrativa contada a três vozes, com acontecimentos que vão interligar as três mulheres e o passado das duas mais velhas.

[Fotografia da minha autoria]

Simpatizei de imediato com a Verity e com a sua personalidade. Confesso que adorei a forma como a autora iniciou o livro. Assim que li o primeiro capítulo da Verity, pensei "isto não vai correr nada bem" e, de facto, não correu.

Em Vidas Adiadas temos mentiras. Muitas mentiras. Verity mente, Serena mente desde sempre e Poppy vive ainda assombrada pelas mentiras. Assistimos à forma como as vidas de todos os envolvidos vão voltar a desmoronar-se devido às mentiras.

Com o talento a que a autora já nos habituou, neste novo romance, cujo título original — All my lies are true — me agrada muito mais do que o título português, poderemos encontrar uma dose bem generosa de dramas familiares, conjugada com a temática das relações abusivas e de como a justiça nem sempre é justa. Temos romance, mentiras e imensas reviravoltas.

O livro é extremamente bom, está estruturado de forma muito inteligente, cativando-nos e fazendo-nos desconfiar de tudo e de todos. No final, as personagens acabam por receber o consolo de que necessitavam para prosseguir de vez com as suas vidas, sem mais assombrações do passado, e quero acreditar que elas desta vez vão conseguir.
Uma sequela incrível e imperdível do romance Um Erro Inocente. Não deixem de ler!

Classificação: 4/5 estrelas

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.