segunda-feira, 6 de abril de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.9 | A confissão


Tema: Tive uma ideia!

          A confissão

A compreensão atingiu-me durante a madrugada, em mais uma das minhas noites de insónias. Raramente conseguia dormir mais de três horas por noite. O medo não me deixava. Nem o roncar do meu marido.

Permaneci deitada, os olhos cansados fixos na escuridão. Percebi que chegara o dia. Por favor, não me julguem pelo que estou prestes a fazer. Por vezes, fazemos o que temos de fazer. Não pensamos. Só queremos sobreviver.

Após cinco tentativas falhadas para fugir dele, desisti. Ou pelo menos mentalizei-me de que não era capaz. Ele tornava-se mais agressivo a cada uma das minhas tentativas. Percebi que aquele não era o caminho e mostrei-me mais dócil, mais obediente. Ele recompensou a minha mudança. Deixou de me bater com tanta frequência e começou a deixar-me sair de casa com ele, em pequenos passeios.

Mas tudo mudou quando me deparei com uma nova oportunidade. Gostava de poder dizer que a ideia partira de mim. Gostava de me ter sentido iluminada. Gostava de ter sido eu a exclamar: «Tive uma ideia!».

Mas não aconteceu nada disso. A ideia não era minha. Mas podia salvar-me.

Naquela manhã, fiz a minha rotina habitual. Tomei banho e arranjei-me, fazendo questão de disfarçar o corte no lábio que ele me provocara duas noites antes e que ainda me doía. Ele não gostava de ver em mim as marcas das suas agressões.

Passei mais de duas horas na cozinha, tentando esmerar-me no guisado de cabrito e no bolo que apresentaria como sobremesa. Tinha de sair tudo perfeito.

Quando a mãe dele chegou, fomos almoçar. Como quase sempre acontecia, tornei-me invisível perante a atenção desmesurada que ele dava à mãe. Mas desta vez não me importei. Estava a esforçar-me ao máximo para que ninguém reparasse na tremura das minhas mãos.

O bolo de laranja e chocolate fitava-me, ameaçador, do alto da sua travessa. Ele sabia o que eu havia feito.

Assim que todos terminaram a refeição, levantei os pratos sujos da mesa e coloquei o bolo mesmo ao centro.

A minha sogra sorriu para mim e pediu:

— Parte-me uma fatia bem gorda, minha querida.

Obedeci. Não era um pedido estranho. Ela costumava adorar os meus bolos.

Contudo, desta vez senti-me aterrorizada. Não havia como voltar atrás.

Ela pegou no bolo com a mão direita e abocanhou quase metade da fatia, ignorando o garfo e a faca de sobremesa que eu colocara junto ao prato.

Tentei fechar os olhos mas não fui capaz. Era como se me tivessem arrancado as pálpebras.

Tudo aconteceu numa fração de segundos. Enquanto mastigava o grande pedaço de bolo, os seus olhos começaram a lacrimejar. Foi com horror que a vi agarrar-se à garganta, como se estivesse engasgada. Ou sufocada.

— O que se passa? — perguntou o meu marido, levantando-se bruscamente da mesa. — Mãe?

A reação dela era agora mais exagerada. Fazia ruídos estranhos com a garganta e os lábios começavam a inchar.

Ele olhou-me desconfiado, o ódio que eu tantas vezes vira no seu olhar. Levou à boca um pedaço de bolo do prato da mãe e identificou de imediato o problema.

— Amendoim — sussurrou. — Minha grandessíssima cabra!

Aproximou-se de mim e esmurrou-me, atirando-me ao chão. Por pouco não bati com a cabeça na perna da mesa, mas senti-me atordoada.

Vi-o agarrar a mãe, mais aflita a cada minuto que passava, e levá-la para fora de casa. Pouco depois ouvi o som do carro a afastar-se.

Levantei-me, ainda a tremer. Dirigi-me à casa de banho e vasculhei o cesto da roupa suja até encontrar a mochila que escondera no dia anterior. Era o único local da casa que ele não controlava.

Caminhei até à porta que dava para a rua e suspirei de alívio quando percebi que, com a atrapalhação de socorrer a mãe, ele se esquecera de a trancar.

Abri-a e contemplei a liberdade. Comecei a correr. Fugi sem olhar para trás. A minha visão toldava-se de lágrimas à medida que me recordava daquele dia, apenas duas semanas antes, em que a minha sogra me agarrara a mão, fixando-me o olhar e sussurrando, como se me desse uma ordem: «sou alérgica ao amendoim».

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Palavras Sentidas


"A maternidade não nos tornava mais fortes; fazia com que ficássemos vulneráveis e receosas por aquilo que a morte nos poderia arrebatar."

Lembranças Macabras
Tess Gerritsen

terça-feira, 31 de março de 2020

Aquisições: Março

Chegou ao fim o mês que preferíamos nunca ter vivido. A pandemia veio alterar tudo no nosso dia a dia e fazer-nos repensar tudo aquilo que tomávamos como garantido. A quarentena já ajudou muitas pessoas a pôr as leituras em dia, contudo, para mim, o mês de leituras foi normal e não me trouxe mais vontade de ler. Creio que até foi ao contrário: passei alguns dias bastante desmotivada e com pouca paciência para a leitura.

Mas vamos pensar em coisas boas e ver os livros que chegaram cá a casa durante o mês!

- Não podia ter começado o mês da melhor forma. Este foi o livro que a Silvana me emprestou no âmbito do nosso projeto de empréstimo surpresa. Já iniciei a sua leitura!

EMPRÉSTIMO


- Da Porto Editora chegou este romance de Joana Ferraz, com uma capa muito bem conseguida e uma sinopse que chamou de imediato a minha atenção. Já o li e a opinião pode ser lida aqui.

OFERTA EDITORA


- Já andava de olho neste livro desde a sua divulgação; confesso que fiquei imediatamente agarrada pela premissa. Encontrei-o no OLX a um preço mais baixo e não resisti a adquiri-lo.

COMPRA


Foram estas as minhas aquisições!
E agora contem-me: adquiriram muitos livros este mês?

quinta-feira, 26 de março de 2020

"Cassiopeia" de Joana Ferraz [Opinião]


Cassiopeia é o romance de estreia de Joana Ferraz, autora que venceu, em 2011, o concurso Novos Talentos Fnac, com o conto Maria, uma Breve História.

Fui de imediato atraída pela capa, que acho incrível e que me envolveu no seu magnetismo, levando-me a querer descobrir a sinopse desta história.

Cassiopeia é uma jovem mulher de 30 anos que está em coma induzido depois de ter sofrido um enfarte do miocárdio. Enquanto está no hospital, consciente de tudo o que se passa à sua volta, vai vagueando pelo labirinto da memória, dando-nos a conhecer diversos episódios da sua vida.

O livro segue a ordem cronológica dos 129 dias que Cassiopeia passa em coma, embora os episódios de cada capítulo não sejam relatados de forma linear. Ela partilha episódios da sua adolescência rebelde, dos primeiros amores, da separação dos pais, das suas aventuras e segredos de família que pareciam enterrados no passado.

Tanto vagueia pelas memórias passadas como por momentos do presente, nomeadamente procedimentos médicos e visitas que recebe na enfermaria.

[Fotografia da minha autoria]

É um livro um bocadinho estranho no início, pois parece ter uma narrativa sem linha condutora, mas a verdade é que me prendeu desde as primeiras páginas. Na minha opinião, está muito bem estruturado. Pode ser um livro confuso para alguns leitores mas a memória também o é.
Achei-o envolvente e com uma pitada de mistério, levando-me a desejar, por um lado, ler devagar para desfrutar ao máximo da leitura e, por outro, ler tudo de uma vez para descobrir o que acontece no final a esta personagem.

Cassiopeia está em coma. Será que vai conseguir acordar?

Achei a escrita da Joana Ferraz uma autêntica lufada de ar fresco. A escrita é muito bonita, revelando alguma maturidade e sem ser excessivamente formal, adequando-se na perfeição a esta história, toda ela contada na primeira pessoa. Estava mesmo a precisar de ler algo assim refrescante e ainda melhor vindo de uma autora portuguesa.

Simpatizei com Cassiopeia desde as primeiras páginas, não por estar em coma e sentir pena dela, mas pela sua voz. É sincera e crua, relatando a sua vida sem censura.

Um dos últimos capítulos traz uma revelação que abala todo o mundo da nossa personagem e que me deixou de coração apertado. Acredito que interpretei bem o final mas gostava mesmo de poder conversar com outros leitores acerca deste livro.

Cassiopeia é uma leitura mais que recomendada. Leiam, experimentem, conheçam o trabalho desta autora! Eu cá ficarei a aguardar novos romances da Joana Ferraz.

Classificação: 4/5 estrelas

Nota: Este livro foi-me oferecido pela editora em troca de uma opinião honesta.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Palavras Sentidas


"― Quando se ama alguém, por vezes é necessário colocar as suas necessidades à frente das nossas."

O Cliente
Vi Keeland

terça-feira, 24 de março de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.8 | Memórias


Tema: Foi tão bom, não foi

          Memórias

Foi tão bom, não foi? Tenho-me lembrado todos os dias das nossas últimas férias. Foram as terceiras fora do país, mas as primeiras num daqueles destinos tropicais que sempre estiveram na minha lista de desejos. Recordo-me da discussão que tivemos por não achares que era o melhor ano para viajar, uma vez que tinhas começado um novo emprego há poucos meses. Ralhei, resmunguei e amuei como uma criança por pensar que não davas valor à data que precisávamos de festejar. Mas tu conheces-me melhor do que eu própria e, nessa noite, já estávamos a fazer as pazes. No dia seguinte, apareceste-me com os bilhetes de avião.

Os médicos hoje passaram por aqui. Disseram que estão confiantes na tua recuperação. És forte e um lutador. Vais acordar não tarda nada e estes sessenta e quatro dias serão apenas uma nuvem negra que atravessou o nosso céu. Eu sei que vais voltar para mim, meu amor.

Foi tão bom, não foi? O sol a aquecer-nos a pele, a boa disposição, as gargalhadas que me provocavas com os teus constantes disparates, a comida que conhecemos e experimentamos, as ruas daquele país, as corridas que gostavas de dar todas as manhãs, arrastando-me atrás de ti e ignorando as minhas reclamações em voz ensonada. A forma doce como me beijavas e te agarravas ao meu corpo, como se estivesses a descobrir-me pela primeira vez…

Passei a manhã a trabalhar e, após o almoço, vim para cá, como tenho feito todos os dias. Ajudo a dar-te banho e a fazer-te a barba, porque não suporto ver as enfermeiras a tocar na tua pele que eu conheço centímetro a centímetro de tanto a ter beijado. Não são ciúmes, sabes que não. É a minha forma de estar presente, de te relembrar a cada dia que estou aqui a pedir-te que acordes. Quando esse momento chegar, quero ser a primeira pessoa que verás com esses teus olhos de safira.

Será tão bom, não será? Tenho andado a compilar uma lista das coisas que quero fazer contigo, dos lugares que vamos conhecer, das novas experiências que iremos partilhar. Eu sei que não é para fazer tudo de uma vez, nem sequer teremos de cumprir a lista toda. Vais precisar ainda de um tempo para recuperar, para regressares à nossa vida do ponto onde a deixaste. Mas não me deixes vivê-la sem ti. Não me abandones nesta escuridão. Acorda. Acorda, por favor, meu querido. Estou aqui contigo. Abre os olhos. Acorda, meu amor.

quinta-feira, 19 de março de 2020

"O Rio de Esmeralda" de José Rodrigues [Opinião]


O Rio de Esmeralda é o primeiro romance de José Rodrigues, publicado em 2017, ao qual já se seguiram os romances Voltar a Ti e O Tempo nos teus Olhos.

Uma das coisas que chama de imediato a atenção nos livros do autor são as capas. Todas são compostas por fotografias da autoria de Sara Augusto e, devo dizer, são lindíssimas.

Curiosa com as opiniões positivas que tenho visto no instagram, tomei a liberdade de pedir um exemplar ao autor para leitura e escrita de uma opinião. Ele acedeu gentilmente ao meu pedido e fez-me chegar a casa um exemplar autografado de O Rio de Esmeralda.

Tal como a capa, o interior do livro também contém fotografias de Sara Augusto, uma no início de cada capítulo. Foi feito um trabalho muito bom, as fotografias são lindas e o interior do livro é muito agradável.

Comecei a leitura com imensas expectativas. Sentia-me contente por estar a ler e conhecer um novo autor português e queria perceber este fascínio que os seus livros têm provocado nos leitores. Contudo, por vezes, as nossas expectativas acabam por sofrer um pouco à medida que nos embrenhamos na leitura e é por isso que considero que esta opinião é difícil de escrever.

Sou sempre sincera nas minhas opiniões literárias, independentemente de o livro ser comprado ou oferecido por uma editora ou autor. Se a leitura não me cativou, digo-o e explico sempre o meu ponto de vista. Ser desonesto é enganar tanto os outros leitores como os próprios autores, que precisam de ouvir todos os sentimentos dos leitores para poderem melhorar.

Fiquei triste porque esperava gostar mais deste livro. Queria ter gostado mais.

[Fotografia da minha autoria]

O Rio de Esmeralda conta-nos a história de Esmeralda e António que, em jovens, viveram um grande amor. A vida acabou por separá-los e ambos seguiram novos caminhos. Mais de vinte anos depois, vão ter a possibilidade de um reencontro, que irá avivar a doçura de todas as memórias e sentimentos.

A escrita do autor é muito bonita e cuidada, notando-se alguma doçura na forma como aborda as personagens e os acontecimentos das suas vidas. Há metáforas interessantes, como comparar a vida de Esmeralda a um rio. No entanto, a prosa do autor centra-se muito no contar a história, ao invés de a mostrar, de nos transportar para dentro das páginas.

Gostava de ter visto um maior desenvolvimento do passado das personagens, do motivo por que saíram da aldeia bem como o porquê de se terem separado. Apenas nos foi dito que se separaram para irem para universidades diferentes e nunca mais se viram. Ora, isto é pouco para um leitor ávido por descobrir tudo acerca das personagens. Será que um amor tão forte morre assim? Deixa-se vencer facilmente pela distância sem dar qualquer luta?

Talvez eu não me tenha sentido muito ligada a estas personagens, embora todos nós já tenhamos alguma vez na vida passado por uma separação deste género ou por um amor não correspondido.

Senti também que os diálogos precisavam de ser mais trabalhados para serem mais realistas, ou seja, adequarem-se ao género, idade e profissão das personagens. Estas carecem igualmente de caracterização, de mais traços distintivos.

Não conheço os restantes livros do autor, não posso afirmar se houve evolução, uma vez que comecei pelo primeiro. No entanto, acredito que o autor tem bastante potencial se limar algumas arestas, nomeadamente o equilíbrio entre contar e mostrar.

Em suma, não deixo de salientar a importância de lermos e apoiarmos os autores portugueses e de escrevermos opiniões que os ajudem a ser ainda melhores.

Classificação: 2/5 estrelas

Nota: Este livro foi-me oferecido pelo autor em troca de uma opinião honesta.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Palavras Sentidas


"A arte não é um animal exótico que se guarde em cativeiro para que possamos admirá-lo todos os dias. Pelo contrário, deve ser contemplada de forma próxima por todos nós. Só assim poderá cumprir a sua principal função: inspirar-nos."

A Última Ceia
Nuno Nepomuceno

sexta-feira, 13 de março de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.7 | O site


Tema: Escreve o teu elogio fúnebre

          O site

Olho para o retângulo branco no ecrã à minha frente, onde o cursor pisca sem parar.

Não sei o que escrever.

Deverei falar sobre mim? Dos sonhos que realizei e daqueles que ficaram por concretizar? Pedir desculpa à minha família e aos meus amigos pelas inúmeras asneiras que fiz? Ou dizer-lhes simplesmente que lamento a sua perda?

O que será mais correto escrever, sabendo que serão as minhas últimas palavras?

Desculpem, vocês devem estar confusos, sem saber quem sou e o que estou a fazer.

Sou uma investigadora particular especializada em casos de traição conjugal. Dito de uma forma mais simples, eu ajudo as pessoas a divorciarem-se.

Foi durante uma das minhas investigações para um novo cliente que me deparei com este site incrível. E olhem que nem precisei de me meter em ilegalidades, coisa que raramente faço, caso estejam a ficar preocupados.

Encontrei-o por acaso. Atraída pelo nome, cliquei no link da página e em poucos segundos apresentou-se perante mim um ecrã acinzentado, com umas letras azuis bem gordas, onde se lia: Planeie o seu próprio funeral.

É isso mesmo. Arrepiante, não é? Fiquei tão incrédula como vocês estão neste momento.

Mas depois comecei a explorar o site e mudei de ideias. Está muito completo, oferece-nos diversas possibilidades para planear o funeral dos nossos sonhos, bem como apoio especializado em todos os momentos.

Abri o formulário de planeamento e comecei por inserir os meus dados pessoais. A seguir vem a escolha do caixão que se pode personalizar totalmente ao nosso gosto. Eu escolhi uma urna para cremação. Não faço questão de ficar a ocupar espaço no meio da terra.

Podem também deixar indicações para a missa do vosso funeral e escolher as músicas que querem que sejam tocadas.

A parte final – antes de incluir tudo isto num testamento – foi aquela que me deixou sem saber o que fazer. O retângulo branco onde o cursor pisca sem parar.

Mesmo em cima, a indicação: Escreva o seu elogio fúnebre.

O que é que se escreve nestas alturas?

Levanto-me da cadeira e espreito pela janela, enquanto reflito mais um pouco. O céu está cinzento, não tardará a chover.

Regresso ao computador e, surpreendentemente, os meus dedos iniciam uma dança pelo teclado e as palavras começam a surgir diante de mim. Decorridos dez minutos, tenho um incrível texto de quinhentas palavras que será lido no dia do meu funeral. Sorrio, orgulhosa de mim!

Querem saber o que escrevi, não querem? Aposto que estão aí roídos de curiosidade!

Lamento, mas terão de esperar pelo dia do meu funeral que, a propósito, só acontece lá para o final do capítulo trinta e cinco.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Palavras Sentidas


"Não importa como viveste a tua vida (...). Não importa o grau da tua riqueza, o que alcançaste, aqueles que conheces ou as esperanças que tens. No final, acontece o mesmo a cada um de nós... todos vamos morrer."

O Carrasco do Medo
Chris Carter

terça-feira, 10 de março de 2020

"Cassiopeia" de Joana Ferraz [Divulgação]

Título: Cassiopeia
Autor: Joana Ferraz
Edição: 2020
Editora: Coolbooks
Páginas: 208
PVP: 15,50€

Serão 129 dias de coma suficientes para explorar o labirinto da memória?

Cassiopeia é o romance de estreia de Joana Ferraz

É com uma narrativa sem princípio, meio e fim, mas capaz de intrigar o leitor e quase o obrigar a saber o que acontece na página seguinte que Joana Ferraz se estreia neste género literário. Cassiopeia é o título do seu primeiro romance já disponível com o selo da Coolbooks.

Sinopse:

Cassiopeia Lopes. Trinta anos. Enfarte do miocárdio. Coma induzido.

Presa no seu próprio corpo, mas consciente de tudo o que se passa à sua volta, Cassiopeia vagueia pelo labirinto da memória.

De forma crua, retoma episódios da sua vida, desde a dura separação dos pais à adolescência rebelde, aos primeiros amores, às descobertas do sexo, ao engano de todas as suas expectativas e convicções.

Cassiopeia quer acordar, mas tarda em fazê-lo.

Sobre a autora:

Nasceu em 1978. É Licenciada em Direito, fez Mestrados em Propriedade Intelectual e Gestão e Estudos da Cultura.

Em 2011, ganhou o concurso Novos Talentos Fnac com o conto Maria, Uma Breve História, mais tarde adaptado para cinema.

Atualmente é jurista na Rádio e Televisão de Portugal e uma constante repetente em viagens de mochila.

segunda-feira, 9 de março de 2020

"Segredos Obscuros" de Hjorth & Rosenfeldt [Opinião]


«Um thriller extraordinariamente inteligente.»
De Telegraaf (Holanda)

Apesar de ter na estante três volumes da série de Sebastian Bergman, escrita por uma dupla de autores suecos, ainda não tinha tido oportunidade de lhes dar a devida atenção. Assim que a minha melhor amiga me emprestou o primeiro volume da série, não tive como escapar e atirei-me avidamente a esta leitura.

Deixem-me apenas confessar-vos que tenho uma pequena mania de fazer cara feia aos policiais com mais de 500 páginas. Não tenho qualquer problema em ler livros volumosos; apenas fico com receio de que um livro deste género, com tantas páginas, possa vir a arrastar-se e ter alguma palha. Provavelmente este é apenas um preconceito meu, que não se mostrará verdadeiro em muitos livros.

De facto, os meus receios eram completamente descabidos. Segredos Obscuros é um policial muito bem construído e estruturado, com uma interessante diversidade de personagens e bem equilibrado a nível de investigação policial.

Tudo começa com o desaparecimento de Roger, um jovem de 16 anos que, mais tarde, é encontrado morto, com o corpo mutilado e o coração arrancado do peito. Isto dá início a uma investigação que irá desvendar imensos segredos.

Nos primeiros capítulos, o livro não é muito dinâmico mas a verdade é que acaba por agarrar o leitor e mantê-lo curioso até ao fim. Está sempre a acontecer alguma coisa e, embora no início os investigadores tenham dificuldade em prosseguir na investigação, as pistas vão surgindo e, pouco a pouco, vai sendo montado o quadro deste crime.

[Fotografia da minha autoria]

Como referi acima, conhecemos bastantes personagens. Há espaço para uma boa caracterização de todas elas, o que nos permite sentir afinidade por umas e antipatia por outras.

Gostava de falar de Sebastian Bergman, um psicólogo que trabalhava como profiler para a Polícia em casos de assassinos em série. Um tsunami levou-lhe a mulher e a filha e, desde aí, ele nunca mais foi o mesmo. Deixou de trabalhar e transformou-se num homem à deriva.
Sebastian é de facto uma personagem intrigante. É brusco, rude e convencido nas suas interações com os outros, o que por diversas vezes me fez sentir uma certa antipatia por ele. Contudo, não passa de um homem que perdeu tudo e que, volvidos alguns anos, ainda não consegue ainda lidar com aquela tragédia. A dor dele é palpável.

Também gostei do inspetor Thomas Haralsson. Não sei se gostar será o termo certo, uma vez que passei todo o livro a sentir pena dele. Tudo lhe corria mal. Foi afastado da investigação quando uma equipa externa foi chamada para investigar este homicídio, mas nunca desistiu de provar o seu valor como detetive. O problema é que nunca conseguia fazer nada acertadamente. A juntar a tudo isso, tinha de lidar com a mulher que andava a fazer tratamentos de fertilidade e estava desesperada por engravidar. Nem no final do livro as coisas melhoraram, por isso espero que este homem possa vir a ter alguma sorte nos volumes seguintes da série.

O final foi bastante surpreendente e achei aquelas últimas linhas incríveis. Mas que revelação bombástica! Só me deixou ainda mais curiosa por ler a próxima aventura de Sebastian Bergman.

Para quem é fã de policiais e, especificamente, de literatura nórdica, aqui está uma sugestão a não perder. Em Portugal, a Suma de Letras já publicou cinco volumes desta série.

Classificação: 4/5 estrelas

sexta-feira, 6 de março de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.6 | O vírus


Tema: Oh não, um vírus outra vez!

          O vírus

— João, vê se vais para casa descansar — disse-lhe a colega de laboratório, mesmo antes de se ir embora, ao final do dia.

João acenou-lhe com a mão, enquanto abanava a cabeça, prometendo obedecer ao seu conselho. Contudo, não tinha qualquer intenção de abandonar o que estava a fazer. Tal como no dia anterior. E no dia antes desse. E em nenhum dos dias que se seguiram ao desabar do seu mundo.

Recordava-se perfeitamente do dia em que ouvira pela primeira vez falar do vírus porque fora também o dia em que descobrira que iria ser pai.

Há uma semana que não saía daquela sala de laboratório. Tornara-se o seu refúgio. O seu santuário.

O seu purgatório.

Se ao menos tivesse sido suficientemente rápido…

Nos primeiros dias ninguém atribuiu muita importância ao aparecimento do vírus. Porém, à medida que os casos se começaram a multiplicar, o pânico instalou-se nas populações. As primeiras mortes revelaram que se estava perante algo realmente grave. E quatro meses depois não havia um único país no mundo que não tivesse dezenas de casos confirmados.

Há uma semana que João não dormia, excetuando aquelas duas horas que se autorizava a parar. Alimentava-se de café e de uma ou outra sandes, mas sabia que não aguentaria muito mais tempo. Sentia que o seu corpo se assemelhava a uma bomba atómica pronta a explodir.

Mas não podia parar. Sabia que estava prestes a alcançar a descoberta que todos ansiavam. Uma descoberta que, contudo, lhe era inútil, uma vez que nada lhe poderia devolver o que perdera.

O mundo não estava preparado para ouvir aquela declaração de pandemia. Mas ao quinto mês o vírus infetara já dois milhões de pessoas. E ao sétimo mês os investigadores lutavam contra três estirpes diferentes.

João afastou-se da bancada onde trabalhava e dirigiu-se à casa de banho. Tirou as luvas e a máscara e atirou-as para dentro do caixote do lixo. Lavou as mãos e a cara. Sentia a testa e as bochechas demasiado quentes. Havia momentos em que se sentia à beira de desfalecer. O cansaço era muito e o corpo não parava de lhe tremer.

Recompôs-se e fitou o seu rosto no espelho. O rosto do desespero. Um destroço humano. Um homem que, apenas alguns dias antes, se agarrara ao corpo moribundo da mulher. Chorou. Berrou. Gritou por ela e pelo filho que nunca viria a conhecer.

Tinha sido vencido pelo vírus.

A única coisa que lhe restava, mesmo sabendo que chegara tarde demais, era ter a certeza de que seria capaz de o aniquilar.

Arrastou-se de novo para a bancada, sendo assolado por um ataque de tosse.

O derradeiro teste chegara. Não havia mais tempo. E tinha a cobaia perfeita.

Agarrou a seringa onde preparara a vacina e injetou-se no braço.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Projeto Conjunto | Empréstimo Surpresa [Livro Recebido]

 
Esta semana chegou cá a casa mais um livro da Silvana no âmbito do nosso empréstimo surpresa!

Ela disse-me que o livro seria uma grande surpresa, o que me deixou curiosa durante os vários dias em que estive à espera da chegada do envelope.

E o livro que recebi foi este:

 
De facto, foi uma enorme surpresa! Não estava mesmo nada à espera! Mas a verdade é que não tinha nenhuma suspeita do livro que poderia ser. Gostei muito da escolha dela!
Além do mais, este é talvez um dos livros mais novinhos da estante da Silvana; ela comprou-o no mês passado, por isso está a dar-me a grande responsabilidade de ser a primeira a lê-lo.

Vamos a isso?

Obrigada Silvana!

quarta-feira, 4 de março de 2020

Palavras Sentidas


"Há quem diga que o dinheiro não compra a felicidade. Pode ser que não. Todavia, se o gerirmos como deve ser, o dinheiro compra liberdade e tempo, e essas coisas são muito mais palpáveis do que a felicidade."

Não Desistas
Harlan Coben

terça-feira, 3 de março de 2020

Aquisições: Fevereiro

O mês mais pequeno do ano esteve recheado de boas aquisições literárias.
Vamos ver?

- Logo no início do mês, não consegui resistir aos momentos WOOK e adquiri o tão desejado novo thriller de Harlan Coben! Ainda não o li, mas será para breve!

COMPRA


- Este foi-me emprestado pela melhor amiga, durante o nosso passeio que inclui sempre uma troca de livros!
É a minha leitura atual.

EMPRESTADO


- Esta prenda de Natal do meu irmão veio um bocadinho atrasada, uma vez que ele me tinha comprado um livro repetido e precisou depois de o trocar. Mas qualquer altura é ótima para receber um livro como prenda! Obrigada!

PRENDA DE NATAL


- Para terminar muito bem o mês, recebi este livro que me foi gentilmente oferecido pelo autor, José Rodrigues. Veio autografado e tudo!! Estou muito curiosa e vou começar a leitura dentro de poucos dias para depois partilhar tudo convosco.

OFERTA


Como podem ver, foi um mês muito bom!
E como correu o vosso a nível de aquisições?

sábado, 29 de fevereiro de 2020

"O Homem dos Sussurros" de Alex North [Opinião]


«Primeiro é sinistro. Depois, assustador. Depois, aterrador. E depois... bem, caro leitor... avance por sua conta e risco. Um thriller ambicioso e profundamente gratificante - uma mistura de Harlan Coben, Stephen King e Thomas Harris.»
A. J. Finn, autor bestseller internacional

Quando este livro foi publicado pela Topseller, fiquei de imediato de olho nele. Primeiro, porque a capa é maravilhosa e segundo, a premissa da história agradou-me bastante.

Alex North é o pseudónimo de um autor inglês, anteriormente publicado sob outro nome. Após ter lido alguns capítulos, dei comigo a pesquisas acerca dele, na tentativa de descobrir a sua verdadeira identidade. Contudo, esta continua mantida em segredo.

Fiz esta pesquisa porque achei este livro muito bem escrito, com uma boa estrutura e com ótimas interações entre as personagens. Nota-se que é um livro de um autor já com alguma experiência e daí eu me ter questionado se já me teria cruzado com outro livro do autor.

Li opiniões muito boas e mesmo as críticas que vêm no livro deixaram-me com as expectativas bastante elevadas. Tudo fazia crer que este seria um livro sinistro e aterrador e lá me atirei à leitura, desejosa de encontrar algo que me arrepiasse até aos ossos.

Este é um thriller que se mistura um pouco com outros géneros. Encontramos uma parte policial bastante desenvolvida, algum drama, espaço para reflexões acerca da paternidade e ainda uma pitada de terror ou de sobrenatural, com a introdução de uma espécie de "bicho-papão" que assusta as crianças.
Não considero que tenha sido um livro de leitura compulsiva, mas conseguiu manter-me interessada e curiosa até ao fim.

[Fotografia da minha autoria]

O que mais me cativou, sem dúvida, foi o pequeno Jake, de 7 anos. É sempre algo irresistível encontrar crianças nos livros, mas este menino consegue deixar-nos de coração apertado. Jake perdeu a mãe há poucos meses e ele o o pai mudaram-se para uma nova terra, em busca de um recomeço.
A interação entre pai e filho foi o que mais me fascinou. Tom, pai de Jake, não só tem de lidar com o próprio luto, como também precisa de se reconectar com o filho, de aprender a ser melhor no seu papel de pai.

Adorei ler as partes em que Jake falava com a sua amiga imaginária. Foram, talvez, as partes mais arrepiantes do livro, na medida em que Tom se mostrava sempre muito intrigado quando ouvia o filho a falar sozinho.

Houve ainda outra cena que me arrepiou sobremaneira mas, de resto, não achei que este livro fosse verdadeiramente sinistro e aterrador. Acho que elevei bastante as expectativas e acabei por sair desiludida.

Em resumo, não é um livro incrível mas é muito bom e não deixo de recomendar a sua leitura. Valeu a pena e tão cedo não me esquecerei do pequeno Jake. Vou também ficar atenta a novos livros do autor; sei que a Topseller vai publicar um novo durante este ano.

Classificação: 4/5 estrelas

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.5 | A piscina


Tema: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia 

          A piscina

Mariana sentiu a água a molhar-lhe os pés antes mesmo de acordar.

Abriu devagarinho os olhos protegidos pelos óculos de sol. Sentia a pele a escaldar.

Doeu-lhe o corpo quando se ergueu da espreguiçadeira. Há quanto tempo estaria a dormir?

Deixou-se estar sentada e olhou em seu redor. A piscina à sua frente parecia não ter fim. A água era azul e límpida. Um autêntico paraíso.

Observou os pés molhados. Encontrava-se num local muito próximo da borda da piscina e certamente alguém a teria molhado ao atirar-se para a água. As gotículas que lhe cobriam a pele começavam já a desaparecer.

Mas que local era aquele? Não se recordava de como ali fora parar.

Tudo à sua volta era incrível. Até o céu era diferente. Decididamente não era português. Talvez estivesse num resort de luxo nas Maldivas!

Ouviu alguém chamar o seu nome. Virou a cabeça na direção da voz. Dentro de água, duas mulheres acenavam-lhe efusivamente. Reconheceu as suas melhores amigas.

Alguns pormenores começavam a assomar-lhe à mente. Tinha vindo de férias com as amigas para festejar o seu divórcio. Finalmente concretizara o seu maior desejo: livrar-se do marido.

Não havia problema se por vezes não se conseguia recordar das coisas. A medicação costumava deixá-la confusa.

Pegou no protetor solar pousado no chão junto aos chinelos e aplicou uma camada generosa no corpo. O tom do seu bronzeado sugeria que aquele devia ser o terceiro ou quarto dia que passava estendida ao sol.

A confusão voltou a apoderar-se dela. Não se lembrava sequer de ter andado de avião.

Estaria a sonhar?

Não! Os sonhos não transmitem este tipo de sensações. Não sentimos o calor na pele. Não sentimos a água a molhar-nos os pés. Não sentimos o cheiro dos cremes bronzeadores.

Ou será que sentimos?

Não. O mais certo era ter abusado do álcool na noite anterior, o que fora claramente um erro.

Levantou-se, decidida a dar um mergulho. Aquelas eram as suas férias de sonho, mais valia aproveitar ao máximo.

Caminhou devagar, tentando ignorar que as pessoas pudessem estar a olhar para ela. Era uma mulher atraente, embora tivesse de usar fato de banho para esconder as cicatrizes. Tinha sempre receio de que os outros fossem capazes de ver as marcas que o marido deixara nela.

Aproximou-se da borda da piscina, sorriu e atirou-se para a água fresca.


Acordou estremunhada. O sol desaparecera. Tudo à sua volta era cinzento e desinteressante.

Doíam-lhe as costas de ter estado deitada naquela cama de péssima qualidade.

Fitou as grades cinzentas à sua frente.

Agora recordava tudo com clareza. Em breve iria ser presente ao juiz.

Talvez não tivesse sido nada boa ideia esfaquear o marido sete vezes.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Palavras Sentidas


"Encosta-se à bancada, como se estivesse preparado para aquela conversa. Como se estivesse estado à espera dela. Que aparecesse alguém que fizesse as suas tragédias parecerem menos trágicas. É o que as pessoas fazem depois de viverem o pior do pior. Procuram pessoas semelhantes... pessoas que estejam pior do que elas... e usam-nas para se sentirem melhor em relação às coisas horríveis que lhes aconteceram."

Verity
Colleen Hoover

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

[Televisão] "The Stranger" de Harlan Coben - 2020 (Opinião)


Empolgante e compulsiva, assim é The Stranger, a nova série da Netflix adaptada de um thriller com o mesmo nome, de Harlan Coben.

Adam Price vê a sua vida virada do avesso quando é abordado por uma estranha, que aparece do nada, e lhe conta um segredo devastador acerca da sua mulher. Perturbado com o que acabou de descobrir, confronta-a e, no dia seguinte, ela desaparece.
Ao mesmo tempo, uma detetive investiga o caso de um jovem que aparece nu e ferido no meio de um bosque, na mesma noite em que é encontrada uma alpaca decapitada.

Há ainda outras narrativas secundárias bastante interessantes e todas acabarão por se interligar.


The Stranger é uma série de 8 episódios que se vê de um fôlego, uma vez que o suspense é constante e está muito bem conseguido. Bastam alguns minutos para nos sentirmos completamente agarrados.

A série é britânica e decorre na cidade fictícia de Cedarfield, tendo sido filmada na área de Manchester, Reino Unido. No entanto, todos os thrillers de Harlan Coben se passam em solo americano, geralmente em subúrbios.

Através de uma pesquisa, fiquei a saber que há várias diferenças entre a série e o livro: a estranha no livro é um homem; há uma personagem que não existe no livro e outra que tem um papel importante mas que no livro já morreu; as tramas secundárias que envolvem os estudantes foram escritas apenas para a série; as motivações de algumas personagens e também alguns detalhes no final.

Desta forma, acredito que ler o livro e ver a série serão duas experiências completamente diferentes. Resta-me aguardar que o livro seja editado em Portugal, pois fiquei com muita vontade de o ler.

Em conclusão, é uma série intensa e viciante, que nos mostra que não podemos fugir aos segredos do nosso passado. Recomendo vivamente!