sábado, 23 de maio de 2020

"Os Pássaros" de Célia Correia Loureiro [Opinião]


Os Pássaros é o mais recente trabalho publicado de Célia Correia Loureiro.
A Célia é uma autora que adoro acompanhar. Já li tudo o que ela publicou e, naturalmente, fiz questão de comprar este livro assim que me foi possível.

Segundo palavras da autora, este é um livro diferente de tudo o que já escreveu. Concordo. É um romance muito intimista, escrito a duas vozes e com grande carga dramática. Acredito que poderá não ser para todos os leitores devido à tristeza presente em toda a narrativa. Talvez precisemos de estar com o humor certo para ler este livro.

Em Os Pássaros, conhecemos Manuela e Diogo, um casal que se separou há seis anos. Volvido esse tempo, eles vão refletir sobre os terríveis acontecimentos que levaram a esse desfecho.

O livro está escrito a duas vozes, numa espécie de cartas ou entradas de diário. Logo nas primeiras páginas percebemos que eles escrevem para o filho de ambos.

[Fotografia da minha autoria]

As vozes de Manuela e Diogo são diferentes mas só consegui entendê-las e distingui-las melhor ao fim de um bom conjunto de capítulos. O que achei muito curioso é que ambos são escritores com estilos e objetivos diferentes. Diogo quer ser o melhor, escrever algo genial que fique para a posteridade; por sua vez, Manuela quer dar o melhor aos seus leitores, algo que os entretenha, e isso passa por romances mais simples.
O tipo de escrita de cada um está presente nas suas vozes e foi assim que interpretei as diferenças entre ambos.

A escrita de Célia é incomparável. Nota-se uma grande maturidade neste livro. Não é simples de ler, exige pausas e reflexão, embora por vezes me sentisse tão mergulhada na história que só queria continuar a ler até encontrar todas as respostas.

Este livro trabalha muito bem a dor das personagens, a sensação de vazio e angústia que os acompanha. Eles querer ser capazes de esquecer e superar, mas será que há mesmo forma de viver depois da perda que eles sofreram?

Durante esta leitura, senti quase sempre um tom sombrio, como se o céu por cima da minha cabeça estivesse coberto de nuvens negras. Esse tom adensou-se à medida que me aproximava do final. As minhas perguntas eram muitas. Fui percebendo logo desde o início o que aconteceu, mas queria saber como e quando. E as respostas chegam-nos finalmente num final capaz de nos destroçar o coração.

Gostei mesmo muito deste livro. É cruel, triste e extremamente duro, mas aconselho vivamente a sua leitura. Se vos apetecer explorar uma obra carregada de dor e dramatismo, então leiam Os Pássaros. Vale muito a pena!!

Classificação: 4/5 estrelas

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Palavras Sentidas


"Deves prestar sempre atenção aos teus sonhos, ensinara-lhe a mãe. São vozes que te dizem o que já sabes, sussurrando-te conselhos que ainda não seguiste."

Lembranças Macabras
Tess Gerritsen

quinta-feira, 14 de maio de 2020

"Aquele Beijo" de Julia Quinn [Opinião]


Tenho-me sentido carente e com vontade de leituras leves, divertidas e românticas, por isso, no espaço de um mês, já devorei dois livros da Julia Quinn.

Antes de mais, uma nota em relação a esta capa amorosa mas completamente aleatória, que me desagradou. Passei toda a história à espera que surgisse algum cãozinho e, chegando ao fim... nada! É uma capa bonita, sim, mas que nada tem a ver com a história!

Aquele Beijo é o sétimo livro da série Bridgerton e traz-nos a história de Hyacinth, a mais nova dos oito irmãos.
Tinha imensa curiosidade em conhecer melhor esta personagem, uma vez que é uma jovem que foge um bocadinho aos padrões da sociedade. É muito aventureira, teimosa e tem a língua afiada, o que desde logo prometia imensas peripécias.

Gareth St. Clair é um homem que tem uma relação conflituosa com o pai, que o odeia. Gareth nada sabe sobre o seu passado e, quando recebe um antigo diário, escrito pela avó paterna, percebe que este poderá conter as respostas que procura. O problema é que o diário está escrito em italiano, uma língua que ele não domina de todo.

Achei este livro muito doce e fiquei apaixonada pelas interações entre Gareth e Hyacinth. Adorei a Lady Danbury e a sua personalidade peculiar e fartei-me de rir com os diálogos entre Gareth e Gregory e o irmão mais velho, Anthony.

O diário e a sua tradução conferiram ao livro um certo tom de mistério, aventura e perigo, ingredientes que combinaram na perfeição com a personalidade de Hyacinth.
Agradou-me também ver como ela era tão despachada para umas coisas e tão desastrada e com falta de jeito para as questões relacionadas com o amor.

Creio que o livro cumpriu na perfeição o seu propósito: entreteve-me durante vários dias, fez-me rir e soltar algumas lágrimas, e deixou-me com aquela sensação de leveza e de esperança, fazendo-me acreditar, por momentos, que há um final feliz para todos nós.

Classificação: 4/5 estrelas


Volumes anteriores:
Crónica de Paixões e Caprichos
Peripécias do Coração
Amor e Enganos
A Grande Revelação
Para Sir Philip, Com Amor
A Bela e o Vilão

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Palavras Sentidas


"É a natureza básica do ser humano. Todos pretendemos ser reconhecidos por aquilo que realizamos. Muitos assassinos sentem prazer em assistir ao desenrolar do drama no rescaldo das suas ações. Têm um grande orgulho pelo trabalho feito."

O Carrasco do Medo
Chris Carter

sábado, 9 de maio de 2020

"Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich [Opinião]


«A sua técnica é uma mistura vigorosa de eloquência e de silêncio, descrevendo a incompetência, o heroísmo e o luto: a partir dos monólogos dos seus entrevistados, cria uma história que o leitor consegue de facto palpar.»
The Telegraph

Vozes de Chernobyl chegou à minhas mãos ainda antes do início da pandemia em Portugal e acabou por se revelar uma leitura bastante difícil para ler em tempos de Covid-19.

Svetlana Alexievich ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2015 e afirma-se que criou um novo género literário que é inteiramente seu: os «romances de vozes». O seu trabalho consiste em realizar centenas de entrevistas e depois trabalhá-las, organizá-las num fio narrativo, oferecendo-nos uma história com alma.

Vi no ano passado a série Chernobyl, da HBO, e fiquei com imensa curiosidade de ler algo sobre esta tragédia que eu não conhecia assim tão bem.

O livro de Svetlana Alexievich é extremamente rico em testemunhos e igualmente doloroso de ler. Um texto neste formato, composto por entrevistas e monólogos, já de si não é fácil de ler. Tratando de um tema sensível como este, ganha uma dimensão muito maior.

Precisei de intercalar esta leitura com outros livros pois senti que era demasiada informação e necessitei de muitas pausas para digerir o que estava a ler.

[Fotografia da minha autoria] 

O livro está muito bem estruturado. Inicia-se com uma pequena introdução histórica e depois dá lugar a uma solitária voz humana: o testemunho da mulher do bombeiro Ignatenko. Esta história de amor e de perda destroçou-me o coração.
Seguidamente, o livro encontra-se dividido em três capítulos e, o que achei mais interessante é que todos terminam com um Coro, ou seja, o Coro dos Soldados, o Coro Popular e o Coro das Crianças, todos agrupando diversos testemunhos.
Por fim, termina um outra solitária voz humana, desta vez o testemunho de Valentina, mulher de um liquidador.

Como referi mais acima, acabei por ler este livro durante as piores semanas da pandemia em Portugal e não consegui deixar de encontrar algumas semelhanças de certa forma assustadoras. Algumas partes fizeram-me lembrar a irresponsabilidade das pessoas, o facto de ser mais difícil convencer os idosos a aderir à mudança, o medo de ver pessoas.
Foram dias e semanas em que poderíamos não estar tão bem a nível psicológico, daí ter considerado este livro um verdadeiro desafio.

A história do desastre nuclear de Chernobyl é arrepiante, terrível e monstruosa. Mas é importante ler sobre ela pois faz parte da história mundial. Um livro soberbo e impactante que deveria ser lido por todos!

Classificação: 5/5 estrelas

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Projeto Conjunto | Empréstimo Surpresa [Desafio]


Desta vez, demorei um pouquinho mais com o livro que a Silvana me enviou: o Vozes de Chernobyl. Foi uma leitura difícil e que precisei de intercalar com outros livros.

O desafio que a Silvana me propôs foi muito interessante. Vamos ver?

DESAFIO:

Diário de leitura

O desafio para este livro consiste na criação de um diário de leitura.
Assim, ao longo dos dias em que este livro te acompanhará terás de fazer um registo das tuas sensações, ideias, emoções, pensamentos ou qualquer outra coisa que aches relevante.
Não é necessário fazer registos diários!!

Podes seguir o seguinte exemplo:

Dia 1 - Segunda-feira, 9 de Março de 2019
Leitura: Da página X à página Y
(Registo)


A MINHA RESPOSTA:

Dia 1 – Domingo, 15 de março de 2020
Leitura: primeiras 24 páginas
O prefácio de Paulo Moura deixou-me com uma imensa curiosidade de me lançar para dentro deste livro. Foram mencionados os anteriores livros da autora, cujos títulos escritos com o alfabeto cirílico me recordaram de que preciso de retomar o curso online que comecei a fazer para aprender russo. Já estou esquecida de como se leem certas letras do alfabeto e isso torna mais difícil ser capaz de ler as palavras!
A Introdução Histórica deixou-me agoniada com os números apresentados em relação a este desastre nuclear.

Dia 2 – Segunda, 16 de março de 2020
Leitura: pág. 25-44
Uma solitária voz humana – o testemunho da mulher do bombeiro Ignatenko. Senti-me indignada quando ela contou que quando se anunciou que a cidade seria evacuada, as pessoas ficaram contentes por irem viver em tendas de campismo na floresta. Associei isto de imediato à irresponsabilidade de algumas pessoas no início do surto do coronavírus em Portugal.
Depois senti-me de coração destroçado durante a leitura do restante capítulo. Que história tão triste.

Dia 3 – Terça, 17 de março de 2020
Leitura: pág. 45-56
Entrevista da autora consigo mesma. Surpreendeu-me que ela tenha demorado quase vinte anos a escrever este livro e senti-me orgulhosa por ela considerar que Liudmila Ignatenko é uma das suas heroínas.

Dia 4 – Terça, 24 de março de 2020
Leitura: pág. 57-81
Iniciei o Capítulo 1 – Terra dos Mortos – e senti-me bastante sensibilizada com o testemunho de Nikolai, um pai que nos conta que perdeu a filha de sete anos devido à radiação.

Dia 5 – Quarta, 25 de março de 2020
Leitura: pág. 81-116
Encontro cada vez mais semelhanças com a situação atual: os idosos eram os mais difíceis de convencer de que teriam de abandonar as suas casas devido à radiação; outro testemunho refere que os homens estavam a morrer mais que as mulheres.
Fico parada quando vejo frases como “Tenho medo quando vejo muita gente.”, neste testemunho, a pessoa falava sobre o medo da guerra e dos homens com espingardas. E não deixo de fazer paralelismos com a Covid-19.
Terminei o capítulo; achei muito interessante o Coro dos Soldados, mas igualmente difícil de ler, com alguns testemunhos realmente chocantes.

Dia 6 – Sábado, 11 de abril de 2020
Leitura: pág. 117-137
Depois de uma pausa de alguns dias, iniciei o Capítulo 2 – Obra-prima da criação – e um dos textos que mais me impressionou foi o monólogo dos caçadores contratados para percorrer as ruas e matar os animais domésticos de forma a evitar epidemias. Recordo-me de que foi das cenas que mais me impressionou também na série.

Dia 7 – Sexta, 17 de abril de 2020
Leitura: pág. 136-166
Senti-me muito triste com o testemunho de uma senhora idosa que estava a ser evacuada de casa e se recusava a deixar o seu gatinho para trás. Adoro as minhas gatas, que são tratadas como membros da família, por isso é doloroso ler tudo o que diz respeito a animais.

Dia 8 – Domingo, 19 de abril de 2020
Leitura: pág. 167-216
Li uma comparação muito interessante entre Chernobyl e a tragédia do Titanic, no que diz respeito ao comportamento das pessoas que, neste caso, continuavam a festejar, a conviver, a dançar, enquanto no fundo do navio a água inundava já os porões inferiores.
Por fim, no final do capítulo foi especialmente difícil ler o Coro popular, com testemunhos dolorosos de pessoas que perderam maridos, filhos, e viveram rodeados de doença e morte.

Dia 9 – Sexta, 24 de abril de 2020
Leitura: pág. 217-250
Iniciei o Capítulo 3 – Admiração pela tristeza – e um dos testemunhos que mais me impressionou foi o de Nina, mulher de um liquidador.

Dia 10 – Domingo, 26 de abril de 2020
Leitura: pág. 251-279
Anotei as duas frases seguintes:
“Perturbou o nosso equilíbrio. A nossa confiança em todas aquelas coisas em que estávamos habituados a confiar.”
“Chernobyl está em toda a parte, à nossa volta, não temos escolha – temos de aprender a viver com ele.”
Referem-se à tragédia de Chernobyl mas impressionaram-me porque se adequam perfeitamente à situação de pandemia que vivemos atualmente.

Dia 11 – Segunda, 27 de abril de 2020
Leitura: pág. 280-302
Impressionou-me o testemunho de Vassíli, um físico, antigo diretor do Instituto de Energia Nuclear, devido à forma como ele lutou para salvar as pessoas, de como levantou a voz e se fartou de ser ignorado pelo governo, que simplesmente afirmava que tudo estava controlado. Um testemunho arrepiante!

Dia 12 – Quinta, 30 de abril de 2020
Leitura: pág. 281 até ao fim
Achei muito interessante que no final de cada capítulo a autora incluísse um coro. Depois do Coro dos soldados e o Coro popular veio o Coro das crianças, talvez um dos mais difíceis de ler devido à visão tão inocente das crianças em relação a esta terrível tragédia e à morte.
Por fim, a autora terminou o livro da mesma forma como o começou – com uma solitária voz humana. Foi a vez de Valentina, mulher de um liquidador, nos contar a sua triste e tocante história.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Palavras Sentidas


"Às vezes é preciso ter a morte diante dos olhos para olharmos para trás e percebermos que não nos orgulhamos da forma como conduzimos a nossa vida."

O Cliente
Vi Keeland

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Aquisições: Abril

Chegou ao fim mais um mês estranhíssimo. Estou a atravessar uma fase de desmotivação para a leitura e por isso li pouco, embora a vontade de ler esteja a reaparecer.

Vamos ver que livros chegaram cá a casa durante o mês de abril?
- Aproveitei os Momentos WOOK, logo no primeiro dia do mês, e adquiri por um preço mais reduzido o novo romance da Célia Correia Loureiro. Estou muito curiosa e quero lê-lo em breve!

COMPRA


- No mesmo dia, recebi ainda um novo livro oferecido pelo autor José Rodrigues. Como eu não me senti cativada pelo anterior romance que li, o autor fez questão de me oferecer este título. Será que me conseguirá cativar?

OFERTA


E foram estas as novas aquisições para a estante.
E vocês, que livros adquiriram este mês?

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Palavras Sentidas


"Para mim, as bibliotecas possuem sempre uma ambivalência estilo catedral, um santuário silencioso onde a aprendizagem é venerada, onde as pessoas elevam os livros e a educação ao nível da religião."

Não Desistas
Harlan Coben

sábado, 25 de abril de 2020

"A Bela e o Vilão" de Julia Quinn [Opinião]


Desde 2016 que não lia nada desta autora e confesso que nem sei como aguentei tanto tempo, uma vez que tinha este livro na estante, conseguido através de uma troca.

Andava a passar por uma fase de desmotivação em que quase não me apetecia ler e senti que precisava de uma leitura mais ligeira, fofinha e com muito amor pelo meio. Este sexto volume da série dos Bridgertons chamou de imediato por mim e não lhe resisti.

De facto, o livro cumpriu na perfeição o seu propósito e conseguiu animar-me. Em apenas duas tardes, devorei 200 páginas, o que foi um progresso gigante tendo em conta a minha falta de vontade de ler.

Neste romance, conhecemos a história de Francesca, uma das irmãs mais reservada e que mais aprecia o sossego. Sabemos que ela ficou viúva e os capítulos iniciais mostram-nos como tudo isso aconteceu. Confesso que as lágrimas me começaram a dançar nos olhos neste início tão emotivo.

[Fotografia da minha autoria]

Depois é-nos dado a conhecer Michael Stirling, um sedutor libertino que nunca entregava o seu coração. Mesmo que quisesse, não podia, visto que se apaixonara completamente por Francesca quando a conhecera, dias antes do seu casamento com o seu primo John.

Michael tem uma personalidade muito interessante, embora na verdade ele pouco tenha de vilão. É apenas um homem que tem de esconder a toda a força os seus sentimentos por uma mulher que lhe é inacessível. E o segredo perverso que a sinopse revela acaba por não ser nada de tão perverso assim. Michael é apenas um homem que tem de lutar contra os seus demónios interiores e usa a fachada de devasso e libertino para proteger o seu coração.

Gostei imenso da relação e de todo o companheirismo entre estes dois. Terminei o livro com um grande sorriso nos lábios e a sensação de que passei uma boas horas.

Este livro pode perfeitamente ser lido em separado, embora seja muito mais interessante ler a série na sua ordem.
Falta-me apenas conhecer a história de mais dois irmãos Bridgerton e, desta vez, não vou deixar passar tanto tempo.

Se apreciam romances de época, Julia Quinn é uma autora imperdível!

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Palavras Sentidas


"Cuidar do corpo é como cuidar de uma criança. Por vezes, é difícil. Por vezes, é uma treta e só queremos ceder, mas, se o fizermos, sofreremos as consequências 18 anos depois."

Verity
Colleen Hoover

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.10 | O observador


Tema: Não tenho tempo para te aturar.

     O observador

Ajustou os binóculos em frente ao rosto e dirigiu o olhar até à janela do apartamento do terceiro andar onde ela entrara há menos de dez minutos. Seguira-a cautelosamente, percorrendo toda a distância que separava o hospital onde ela trabalhava do apartamento no centro da cidade.

Era fácil passar despercebido. Fazia-o há semanas e, a cada dia que passava, tornava-se melhor.

Encontrava-se resguardado por entre uns arbustos. Se alguém passasse ali e estranhasse o seu comportamento, bastar-lhe-ia apontar para a máquina fotográfica e os binóculos, enquanto murmurava «pássaros» com um ligeiro sorriso. Ninguém estaria muito interessado num observador de pássaros.

Concentrou-se na janela onde julgou ver uma sombra. A noite ainda não começara a cair, pelo que ela não acendera as luzes. Viu o contorno do seu corpo atravessar lentamente a janela, da esquerda para a direita, em direção à casa de banho. Sabia que ela tomava banho sempre que chegava a casa do trabalho. Imaginou-a a despir-se. Será que o fazia na casa de banho, como quando viviam juntos? Ou passara a fazê-lo no quarto, percorrendo depois o pequeno corredor, nua, em direção ao duche?

Sentiu-se desconfortável e mudou a posição do corpo.

A verdade é que ela era uma ingrata. Dedicara-lhe quase dois anos da sua vida, submetendo-se a todas as suas vontades e venerando-a como uma deusa, e ela limitara-se simplesmente a descartá-lo. «O problema não és tu, sou eu. Preciso de tempo», dissera-lhe, «Preciso de me concentrar apenas no trabalho». E, num outro dia, numa discussão mais acesa, gritara-lhe: «Não tenho tempo para aturar as tuas crises de ciúmes».

Ingrata.

Depois de tudo o que ele fizera por ela, de todo o tempo que lhe dedicara.

Ciúmes…

Era assim tão errado querê-la só para si? Querer poupá-la aos olhares esfaimados dos outros homens que não conheciam a sua essência? Que apenas queriam possuir o seu corpo?

Segurou com mais força os binóculos. Sentiu na boca o sabor quente a metal. Mordera o lábio com tanta força que este começara a sangrar.

Voltou-lhe à mente a imagem dela nua, no banho, a água a escorrer-lhe pela pele e um sorriso de prazer a contornar-lhe os lábios.

Baixou os binóculos, furiosamente. As mãos tremiam-lhe.

«Se não podes ser minha», pensou, «não serás de mais ninguém».

Olhou para o relógio e enfiou os binóculos dentro da mochila. Do interior retirou uma pequena arma de metal. Prendeu-a no cós das calças e ajustou a casaca de ganga, de forma a que não se visse nada.

Atravessou rapidamente a estrada. Chegou ao prédio e tirou do bolso a chave. Sorriu. Ainda a tinha, embora já não vivesse ali há várias semanas.

Entrou descontraidamente, não fosse o caso de se cruzar com algum dos moradores. Subiu as escadas em passo rápido, só parando em frente à porta do apartamento dela.

Sem hesitação, bateu.

Ouviu a voz dela após alguns segundos.

— Quem é?

— Sou eu. — Olhou em frente, sabendo que ela estaria do outro lado da porta, a espreitar pelo visor. — Preciso de falar contigo.

Uma pausa, antes de ouvir novamente a voz.

— Acho que já não temos nada a dizer um ao outro.

— Por favor. Dá-me apenas cinco minutos. Deves-me isso.

Por momentos, não teve a certeza de que ela lhe abriria a porta, mas logo a seguir ouviu o barulho do ferrolho a ser retirado.

Levou a mão à arma, preparando-se.

No momento em que a porta começou a abrir-se, atirou-se contra ela, empurrando-a com o corpo e enfiando-se dentro do apartamento em menos de um suspiro.

Ela recuou, assustada. Antes que tivesse tempo de perceber o que tinha acontecido, ele apontou-lhe a arma, fechando a porta com o pé.

— Por favor... — gemeu ela.

Viu a cor fugir-lhe do rosto, ao mesmo tempo que se apercebia que ela usava apenas um leve roupão. Ia a caminho do banho.

Por um segundo, vacilou. Mas rapidamente se recompôs. Não, desta vez não iria ser escravo da sedução dela.

Deu um passo em frente.

— Acho que vais precisar de tempo para me aturar — disse.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Palavras Sentidas


"O entusiasmo era raro no trabalho de polícia, bem como negativo; regra geral, significava que a vida de alguém fora destruída."

O Homem dos Sussurros
Alex North

segunda-feira, 13 de abril de 2020

"Não Fujas Mais" de Harlan Coben [Opinião]



«O regresso do rei dos thrillers de grande suspense. Uma leitura que justifica ter o seu telemóvel desligado.»
Closer

Passei umas semanas um pouco desmotivada com a leitura e, para tentar animar-me, agarrei-me ao mais recente thriller de Harlan Coben, publicado em Portugal no início deste ano. Harlan Coben é um autor seguro. É aquele escritor que não deixo de admirar e que consegue agarrar-me à ação e às reviravoltas que imprime nos seus enredos.

Não Fujas Mais conta-nos a história de Simon Greene, um pai desesperado em busca da sua filha. Paige já não é a menina de quem ele se lembra. É uma mulher à beira do abismo, agarrada às drogas e a um namorado abusivo. Para Simon, só há uma coisa que ele pode fazer: percorrer o mundo em busca dela, não interessando se esse caminho é negro e perigoso.

Tenho de confessar que, embora tenha adorado o capítulo inicial (que é sempre fulcral para prender a atenção do leitor), tive alguma dificuldade em prosseguir nos capítulos seguintes, devido à desmotivação que me assolava. Contudo, após alguma insistência, a curiosidade intensificou-se e a história começou realmente a agarrar-me.

[Fotografia da minha autoria]

Há várias razões pelas quais eu admiro este autor. Uma delas é o humor e o sarcasmo que estão sempre presentes nos seus thrillers. Encontrei algumas personagens já familiares, nomeadamente o detetive Nap Dumas, protagonista do anterior romance do autor - Não Desistas.

Tal como acontece em todos os seus trabalhos, também aqui Simon terá de investigar o passado, de forma a descobrir o que fez a sua filha mudar e enveredar por um caminho tão perigoso. Assim, o autor conduz-nos habilmente por uma jornada em busca dos segredos do passado, passado esse que nunca fica enterrado.

Este livro aborda temas muito interessantes, tais como a genética, os testes de ADN, os cultos religiosos e a forma como estes se tornam perigosos para aqueles que acreditam cegamente.

Este foi o 15º thriller que li do autor e, apesar de não ter sido um dos preferidos, creio que conseguiu empolgar-me e devolver-me alguma da motivação para a leitura. Gostei especialmente do final e de conhecer a verdadeira identidade de uma personagem.
Não posso deixar de recomendar este livro aos fãs de thrillers e a quem procura ação, adrenalina e imensas reviravoltas.

Classificação: 4/5 estrelas

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Palavras Sentidas


"O passado define-nos, mas é quase sempre o instrumento da nossa destruição, se não o ultrapassarmos."

Conta-me o Teu Segredo
Dorothy Koomson