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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.10 | O observador


Tema: Não tenho tempo para te aturar.

     O observador

Ajustou os binóculos em frente ao rosto e dirigiu o olhar até à janela do apartamento do terceiro andar onde ela entrara há menos de dez minutos. Seguira-a cautelosamente, percorrendo toda a distância que separava o hospital onde ela trabalhava do apartamento no centro da cidade.

Era fácil passar despercebido. Fazia-o há semanas e, a cada dia que passava, tornava-se melhor.

Encontrava-se resguardado por entre uns arbustos. Se alguém passasse ali e estranhasse o seu comportamento, bastar-lhe-ia apontar para a máquina fotográfica e os binóculos, enquanto murmurava «pássaros» com um ligeiro sorriso. Ninguém estaria muito interessado num observador de pássaros.

Concentrou-se na janela onde julgou ver uma sombra. A noite ainda não começara a cair, pelo que ela não acendera as luzes. Viu o contorno do seu corpo atravessar lentamente a janela, da esquerda para a direita, em direção à casa de banho. Sabia que ela tomava banho sempre que chegava a casa do trabalho. Imaginou-a a despir-se. Será que o fazia na casa de banho, como quando viviam juntos? Ou passara a fazê-lo no quarto, percorrendo depois o pequeno corredor, nua, em direção ao duche?

Sentiu-se desconfortável e mudou a posição do corpo.

A verdade é que ela era uma ingrata. Dedicara-lhe quase dois anos da sua vida, submetendo-se a todas as suas vontades e venerando-a como uma deusa, e ela limitara-se simplesmente a descartá-lo. «O problema não és tu, sou eu. Preciso de tempo», dissera-lhe, «Preciso de me concentrar apenas no trabalho». E, num outro dia, numa discussão mais acesa, gritara-lhe: «Não tenho tempo para aturar as tuas crises de ciúmes».

Ingrata.

Depois de tudo o que ele fizera por ela, de todo o tempo que lhe dedicara.

Ciúmes…

Era assim tão errado querê-la só para si? Querer poupá-la aos olhares esfaimados dos outros homens que não conheciam a sua essência? Que apenas queriam possuir o seu corpo?

Segurou com mais força os binóculos. Sentiu na boca o sabor quente a metal. Mordera o lábio com tanta força que este começara a sangrar.

Voltou-lhe à mente a imagem dela nua, no banho, a água a escorrer-lhe pela pele e um sorriso de prazer a contornar-lhe os lábios.

Baixou os binóculos, furiosamente. As mãos tremiam-lhe.

«Se não podes ser minha», pensou, «não serás de mais ninguém».

Olhou para o relógio e enfiou os binóculos dentro da mochila. Do interior retirou uma pequena arma de metal. Prendeu-a no cós das calças e ajustou a casaca de ganga, de forma a que não se visse nada.

Atravessou rapidamente a estrada. Chegou ao prédio e tirou do bolso a chave. Sorriu. Ainda a tinha, embora já não vivesse ali há várias semanas.

Entrou descontraidamente, não fosse o caso de se cruzar com algum dos moradores. Subiu as escadas em passo rápido, só parando em frente à porta do apartamento dela.

Sem hesitação, bateu.

Ouviu a voz dela após alguns segundos.

— Quem é?

— Sou eu. — Olhou em frente, sabendo que ela estaria do outro lado da porta, a espreitar pelo visor. — Preciso de falar contigo.

Uma pausa, antes de ouvir novamente a voz.

— Acho que já não temos nada a dizer um ao outro.

— Por favor. Dá-me apenas cinco minutos. Deves-me isso.

Por momentos, não teve a certeza de que ela lhe abriria a porta, mas logo a seguir ouviu o barulho do ferrolho a ser retirado.

Levou a mão à arma, preparando-se.

No momento em que a porta começou a abrir-se, atirou-se contra ela, empurrando-a com o corpo e enfiando-se dentro do apartamento em menos de um suspiro.

Ela recuou, assustada. Antes que tivesse tempo de perceber o que tinha acontecido, ele apontou-lhe a arma, fechando a porta com o pé.

— Por favor... — gemeu ela.

Viu a cor fugir-lhe do rosto, ao mesmo tempo que se apercebia que ela usava apenas um leve roupão. Ia a caminho do banho.

Por um segundo, vacilou. Mas rapidamente se recompôs. Não, desta vez não iria ser escravo da sedução dela.

Deu um passo em frente.

— Acho que vais precisar de tempo para me aturar — disse.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.9 | A confissão


Tema: Tive uma ideia!

          A confissão

A compreensão atingiu-me durante a madrugada, em mais uma das minhas noites de insónias. Raramente conseguia dormir mais de três horas por noite. O medo não me deixava. Nem o roncar do meu marido.

Permaneci deitada, os olhos cansados fixos na escuridão. Percebi que chegara o dia. Por favor, não me julguem pelo que estou prestes a fazer. Por vezes, fazemos o que temos de fazer. Não pensamos. Só queremos sobreviver.

Após cinco tentativas falhadas para fugir dele, desisti. Ou pelo menos mentalizei-me de que não era capaz. Ele tornava-se mais agressivo a cada uma das minhas tentativas. Percebi que aquele não era o caminho e mostrei-me mais dócil, mais obediente. Ele recompensou a minha mudança. Deixou de me bater com tanta frequência e começou a deixar-me sair de casa com ele, em pequenos passeios.

Mas tudo mudou quando me deparei com uma nova oportunidade. Gostava de poder dizer que a ideia partira de mim. Gostava de me ter sentido iluminada. Gostava de ter sido eu a exclamar: «Tive uma ideia!».

Mas não aconteceu nada disso. A ideia não era minha. Mas podia salvar-me.

Naquela manhã, fiz a minha rotina habitual. Tomei banho e arranjei-me, fazendo questão de disfarçar o corte no lábio que ele me provocara duas noites antes e que ainda me doía. Ele não gostava de ver em mim as marcas das suas agressões.

Passei mais de duas horas na cozinha, tentando esmerar-me no guisado de cabrito e no bolo que apresentaria como sobremesa. Tinha de sair tudo perfeito.

Quando a mãe dele chegou, fomos almoçar. Como quase sempre acontecia, tornei-me invisível perante a atenção desmesurada que ele dava à mãe. Mas desta vez não me importei. Estava a esforçar-me ao máximo para que ninguém reparasse na tremura das minhas mãos.

O bolo de laranja e chocolate fitava-me, ameaçador, do alto da sua travessa. Ele sabia o que eu havia feito.

Assim que todos terminaram a refeição, levantei os pratos sujos da mesa e coloquei o bolo mesmo ao centro.

A minha sogra sorriu para mim e pediu:

— Parte-me uma fatia bem gorda, minha querida.

Obedeci. Não era um pedido estranho. Ela costumava adorar os meus bolos.

Contudo, desta vez senti-me aterrorizada. Não havia como voltar atrás.

Ela pegou no bolo com a mão direita e abocanhou quase metade da fatia, ignorando o garfo e a faca de sobremesa que eu colocara junto ao prato.

Tentei fechar os olhos mas não fui capaz. Era como se me tivessem arrancado as pálpebras.

Tudo aconteceu numa fração de segundos. Enquanto mastigava o grande pedaço de bolo, os seus olhos começaram a lacrimejar. Foi com horror que a vi agarrar-se à garganta, como se estivesse engasgada. Ou sufocada.

— O que se passa? — perguntou o meu marido, levantando-se bruscamente da mesa. — Mãe?

A reação dela era agora mais exagerada. Fazia ruídos estranhos com a garganta e os lábios começavam a inchar.

Ele olhou-me desconfiado, o ódio que eu tantas vezes vira no seu olhar. Levou à boca um pedaço de bolo do prato da mãe e identificou de imediato o problema.

— Amendoim — sussurrou. — Minha grandessíssima cabra!

Aproximou-se de mim e esmurrou-me, atirando-me ao chão. Por pouco não bati com a cabeça na perna da mesa, mas senti-me atordoada.

Vi-o agarrar a mãe, mais aflita a cada minuto que passava, e levá-la para fora de casa. Pouco depois ouvi o som do carro a afastar-se.

Levantei-me, ainda a tremer. Dirigi-me à casa de banho e vasculhei o cesto da roupa suja até encontrar a mochila que escondera no dia anterior. Era o único local da casa que ele não controlava.

Caminhei até à porta que dava para a rua e suspirei de alívio quando percebi que, com a atrapalhação de socorrer a mãe, ele se esquecera de a trancar.

Abri-a e contemplei a liberdade. Comecei a correr. Fugi sem olhar para trás. A minha visão toldava-se de lágrimas à medida que me recordava daquele dia, apenas duas semanas antes, em que a minha sogra me agarrara a mão, fixando-me o olhar e sussurrando, como se me desse uma ordem: «sou alérgica ao amendoim».

terça-feira, 24 de março de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.8 | Memórias


Tema: Foi tão bom, não foi

          Memórias

Foi tão bom, não foi? Tenho-me lembrado todos os dias das nossas últimas férias. Foram as terceiras fora do país, mas as primeiras num daqueles destinos tropicais que sempre estiveram na minha lista de desejos. Recordo-me da discussão que tivemos por não achares que era o melhor ano para viajar, uma vez que tinhas começado um novo emprego há poucos meses. Ralhei, resmunguei e amuei como uma criança por pensar que não davas valor à data que precisávamos de festejar. Mas tu conheces-me melhor do que eu própria e, nessa noite, já estávamos a fazer as pazes. No dia seguinte, apareceste-me com os bilhetes de avião.

Os médicos hoje passaram por aqui. Disseram que estão confiantes na tua recuperação. És forte e um lutador. Vais acordar não tarda nada e estes sessenta e quatro dias serão apenas uma nuvem negra que atravessou o nosso céu. Eu sei que vais voltar para mim, meu amor.

Foi tão bom, não foi? O sol a aquecer-nos a pele, a boa disposição, as gargalhadas que me provocavas com os teus constantes disparates, a comida que conhecemos e experimentamos, as ruas daquele país, as corridas que gostavas de dar todas as manhãs, arrastando-me atrás de ti e ignorando as minhas reclamações em voz ensonada. A forma doce como me beijavas e te agarravas ao meu corpo, como se estivesses a descobrir-me pela primeira vez…

Passei a manhã a trabalhar e, após o almoço, vim para cá, como tenho feito todos os dias. Ajudo a dar-te banho e a fazer-te a barba, porque não suporto ver as enfermeiras a tocar na tua pele que eu conheço centímetro a centímetro de tanto a ter beijado. Não são ciúmes, sabes que não. É a minha forma de estar presente, de te relembrar a cada dia que estou aqui a pedir-te que acordes. Quando esse momento chegar, quero ser a primeira pessoa que verás com esses teus olhos de safira.

Será tão bom, não será? Tenho andado a compilar uma lista das coisas que quero fazer contigo, dos lugares que vamos conhecer, das novas experiências que iremos partilhar. Eu sei que não é para fazer tudo de uma vez, nem sequer teremos de cumprir a lista toda. Vais precisar ainda de um tempo para recuperar, para regressares à nossa vida do ponto onde a deixaste. Mas não me deixes vivê-la sem ti. Não me abandones nesta escuridão. Acorda. Acorda, por favor, meu querido. Estou aqui contigo. Abre os olhos. Acorda, meu amor.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.7 | O site


Tema: Escreve o teu elogio fúnebre

          O site

Olho para o retângulo branco no ecrã à minha frente, onde o cursor pisca sem parar.

Não sei o que escrever.

Deverei falar sobre mim? Dos sonhos que realizei e daqueles que ficaram por concretizar? Pedir desculpa à minha família e aos meus amigos pelas inúmeras asneiras que fiz? Ou dizer-lhes simplesmente que lamento a sua perda?

O que será mais correto escrever, sabendo que serão as minhas últimas palavras?

Desculpem, vocês devem estar confusos, sem saber quem sou e o que estou a fazer.

Sou uma investigadora particular especializada em casos de traição conjugal. Dito de uma forma mais simples, eu ajudo as pessoas a divorciarem-se.

Foi durante uma das minhas investigações para um novo cliente que me deparei com este site incrível. E olhem que nem precisei de me meter em ilegalidades, coisa que raramente faço, caso estejam a ficar preocupados.

Encontrei-o por acaso. Atraída pelo nome, cliquei no link da página e em poucos segundos apresentou-se perante mim um ecrã acinzentado, com umas letras azuis bem gordas, onde se lia: Planeie o seu próprio funeral.

É isso mesmo. Arrepiante, não é? Fiquei tão incrédula como vocês estão neste momento.

Mas depois comecei a explorar o site e mudei de ideias. Está muito completo, oferece-nos diversas possibilidades para planear o funeral dos nossos sonhos, bem como apoio especializado em todos os momentos.

Abri o formulário de planeamento e comecei por inserir os meus dados pessoais. A seguir vem a escolha do caixão que se pode personalizar totalmente ao nosso gosto. Eu escolhi uma urna para cremação. Não faço questão de ficar a ocupar espaço no meio da terra.

Podem também deixar indicações para a missa do vosso funeral e escolher as músicas que querem que sejam tocadas.

A parte final – antes de incluir tudo isto num testamento – foi aquela que me deixou sem saber o que fazer. O retângulo branco onde o cursor pisca sem parar.

Mesmo em cima, a indicação: Escreva o seu elogio fúnebre.

O que é que se escreve nestas alturas?

Levanto-me da cadeira e espreito pela janela, enquanto reflito mais um pouco. O céu está cinzento, não tardará a chover.

Regresso ao computador e, surpreendentemente, os meus dedos iniciam uma dança pelo teclado e as palavras começam a surgir diante de mim. Decorridos dez minutos, tenho um incrível texto de quinhentas palavras que será lido no dia do meu funeral. Sorrio, orgulhosa de mim!

Querem saber o que escrevi, não querem? Aposto que estão aí roídos de curiosidade!

Lamento, mas terão de esperar pelo dia do meu funeral que, a propósito, só acontece lá para o final do capítulo trinta e cinco.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.6 | O vírus


Tema: Oh não, um vírus outra vez!

          O vírus

— João, vê se vais para casa descansar — disse-lhe a colega de laboratório, mesmo antes de se ir embora, ao final do dia.

João acenou-lhe com a mão, enquanto abanava a cabeça, prometendo obedecer ao seu conselho. Contudo, não tinha qualquer intenção de abandonar o que estava a fazer. Tal como no dia anterior. E no dia antes desse. E em nenhum dos dias que se seguiram ao desabar do seu mundo.

Recordava-se perfeitamente do dia em que ouvira pela primeira vez falar do vírus porque fora também o dia em que descobrira que iria ser pai.

Há uma semana que não saía daquela sala de laboratório. Tornara-se o seu refúgio. O seu santuário.

O seu purgatório.

Se ao menos tivesse sido suficientemente rápido…

Nos primeiros dias ninguém atribuiu muita importância ao aparecimento do vírus. Porém, à medida que os casos se começaram a multiplicar, o pânico instalou-se nas populações. As primeiras mortes revelaram que se estava perante algo realmente grave. E quatro meses depois não havia um único país no mundo que não tivesse dezenas de casos confirmados.

Há uma semana que João não dormia, excetuando aquelas duas horas que se autorizava a parar. Alimentava-se de café e de uma ou outra sandes, mas sabia que não aguentaria muito mais tempo. Sentia que o seu corpo se assemelhava a uma bomba atómica pronta a explodir.

Mas não podia parar. Sabia que estava prestes a alcançar a descoberta que todos ansiavam. Uma descoberta que, contudo, lhe era inútil, uma vez que nada lhe poderia devolver o que perdera.

O mundo não estava preparado para ouvir aquela declaração de pandemia. Mas ao quinto mês o vírus infetara já dois milhões de pessoas. E ao sétimo mês os investigadores lutavam contra três estirpes diferentes.

João afastou-se da bancada onde trabalhava e dirigiu-se à casa de banho. Tirou as luvas e a máscara e atirou-as para dentro do caixote do lixo. Lavou as mãos e a cara. Sentia a testa e as bochechas demasiado quentes. Havia momentos em que se sentia à beira de desfalecer. O cansaço era muito e o corpo não parava de lhe tremer.

Recompôs-se e fitou o seu rosto no espelho. O rosto do desespero. Um destroço humano. Um homem que, apenas alguns dias antes, se agarrara ao corpo moribundo da mulher. Chorou. Berrou. Gritou por ela e pelo filho que nunca viria a conhecer.

Tinha sido vencido pelo vírus.

A única coisa que lhe restava, mesmo sabendo que chegara tarde demais, era ter a certeza de que seria capaz de o aniquilar.

Arrastou-se de novo para a bancada, sendo assolado por um ataque de tosse.

O derradeiro teste chegara. Não havia mais tempo. E tinha a cobaia perfeita.

Agarrou a seringa onde preparara a vacina e injetou-se no braço.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.5 | A piscina


Tema: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia 

          A piscina

Mariana sentiu a água a molhar-lhe os pés antes mesmo de acordar.

Abriu devagarinho os olhos protegidos pelos óculos de sol. Sentia a pele a escaldar.

Doeu-lhe o corpo quando se ergueu da espreguiçadeira. Há quanto tempo estaria a dormir?

Deixou-se estar sentada e olhou em seu redor. A piscina à sua frente parecia não ter fim. A água era azul e límpida. Um autêntico paraíso.

Observou os pés molhados. Encontrava-se num local muito próximo da borda da piscina e certamente alguém a teria molhado ao atirar-se para a água. As gotículas que lhe cobriam a pele começavam já a desaparecer.

Mas que local era aquele? Não se recordava de como ali fora parar.

Tudo à sua volta era incrível. Até o céu era diferente. Decididamente não era português. Talvez estivesse num resort de luxo nas Maldivas!

Ouviu alguém chamar o seu nome. Virou a cabeça na direção da voz. Dentro de água, duas mulheres acenavam-lhe efusivamente. Reconheceu as suas melhores amigas.

Alguns pormenores começavam a assomar-lhe à mente. Tinha vindo de férias com as amigas para festejar o seu divórcio. Finalmente concretizara o seu maior desejo: livrar-se do marido.

Não havia problema se por vezes não se conseguia recordar das coisas. A medicação costumava deixá-la confusa.

Pegou no protetor solar pousado no chão junto aos chinelos e aplicou uma camada generosa no corpo. O tom do seu bronzeado sugeria que aquele devia ser o terceiro ou quarto dia que passava estendida ao sol.

A confusão voltou a apoderar-se dela. Não se lembrava sequer de ter andado de avião.

Estaria a sonhar?

Não! Os sonhos não transmitem este tipo de sensações. Não sentimos o calor na pele. Não sentimos a água a molhar-nos os pés. Não sentimos o cheiro dos cremes bronzeadores.

Ou será que sentimos?

Não. O mais certo era ter abusado do álcool na noite anterior, o que fora claramente um erro.

Levantou-se, decidida a dar um mergulho. Aquelas eram as suas férias de sonho, mais valia aproveitar ao máximo.

Caminhou devagar, tentando ignorar que as pessoas pudessem estar a olhar para ela. Era uma mulher atraente, embora tivesse de usar fato de banho para esconder as cicatrizes. Tinha sempre receio de que os outros fossem capazes de ver as marcas que o marido deixara nela.

Aproximou-se da borda da piscina, sorriu e atirou-se para a água fresca.


Acordou estremunhada. O sol desaparecera. Tudo à sua volta era cinzento e desinteressante.

Doíam-lhe as costas de ter estado deitada naquela cama de péssima qualidade.

Fitou as grades cinzentas à sua frente.

Agora recordava tudo com clareza. Em breve iria ser presente ao juiz.

Talvez não tivesse sido nada boa ideia esfaquear o marido sete vezes.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.4 | O patrão


Tema: O google está errado

          O patrão

Vais ser despedida, sussurrou o diabo ao meu ouvido.

Sinto as mãos suadas enquanto atravesso o corredor que separa a minha sala de trabalho do escritório do meu patrão. Três palavras ecoam na minha mente: vais ser despedida.

O mais irónico é que eu não fiz nada. Ainda.

O erro foi do meu patrão e eu estou a caminho do seu escritório para lho comunicar.

Acredito que vou bater o recorde: ser despedida do meu emprego de sonho apenas três meses após ter sido contratada.

Quando cheguei ao escritório, esta manhã, encontrei os meus colegas num alvoroço. Sussurravam desesperadamente, como se estivessem a decidir qual deles deveria sacrificar-se e entrar na câmara de gás.

Tinham descoberto um erro num processo mediático em que estávamos a trabalhar. Era um pormenor mínimo, quase insignificante, mas fora cometido pelo patrão.

E ninguém se atrevia a dirigir-lhe a palavra para lhe apontar o erro.

Ninguém se atrevia a contrariá-lo.

Ninguém se atrevia sequer a respirar junto dele.

Por isso, duas horas depois e farta de assistir ao desespero dos meus colegas, levantei-me da cadeira e voluntariei-me para a morte:

— Eu vou.

Fez-se silêncio na sala.

Todos olharam para mim, de olhos esbugalhados.

E cá estou eu, a preparar-me para dizer ao meu patrão que está errado. E prestes a ser despedida.

Junto à porta, engulo em seco e bato três vezes.

Oiço a sua voz de trovão a dizer-me para entrar.

Entro de cabeça erguida, tentando demonstrar confiança. Se vou morrer, ao menos morro de pé.

Lá está ele, sentado à secretária como um rei no seu trono.

Jonathan Google, o homem que faz tremer até as paredes do edifício.

O homem que seria perfeito, não fosse o azar de ter recebido aquele apelido.

Imaginem que tinham o nome de um motor de pesquisa. Provavelmente teriam sofrido de bullying durante toda a vida.

Inspiro fundo e encho-me de coragem para falar.

Ele ouve-me sem pestanejar e, em seguida, levanta-se e dirige-se à janela interior, baixando a persiana. Agradeço-lhe mentalmente por impedir que os meus colegas assistam à descompostura que estou prestes a receber.

E, por fim, fala.

Duas eternidades depois, saio do seu escritório e arrasto-me até à minha secretária. O meu relógio indica que apenas passaram oito minutos.

Começo a reunir os meus pertences, incrédula com o que acontecera.

Afinal, isto não foi um erro, mas sim um teste. O patrão queria perceber qual de nós teria a coragem suficiente para o enfrentar, uma vez que precisa de uma advogada com fibra para representar um novo cliente.

Vou mudar-me para um novo gabinete.

Acabei de ser promovida.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.3 | A alma gémea


Tema: Manual para iniciar relacionamentos

          A alma gémea

A primeira coisa que fez ao acordar foi olhar para o telemóvel.

14 de fevereiro, disse, em voz alta, para ninguém.

Suspirou, resignada. Atirou o telemóvel para o lado vazio da cama e fitou o teto.

Aquele era só o 26º Dia dos Namorados da sua vida em que acordava sozinha, sem um companheiro a seu lado. Não ia receber nenhuma das prendas lamechas que, por esses dias, inundavam as montras das lojas.

Algo de realmente preocupante se passava com ela. Como é que era possível que nunca tivesse tido um namorado? Que nunca se tivesse apaixonado?

Seria assim tão difícil encontrar a sua alma gémea? O tal que lhe provocaria as tão almejadas borboletas na barriga?

Existe uma alma gémea para cada um de nós. Esta era a frase que a sua youtuber favorita dizia todos os dias. Tornara-se famosa por dar conselhos amorosos nos seus vídeos e publicou, mais tarde, o Manual para iniciar relacionamentos, um livro para todos aqueles que procuram a sua alma gémea.

Contudo, nem os conselhos desta especialista funcionavam consigo. E acreditem, já tentara de tudo.

Atirou com os cobertores para trás e levantou-se. Não tencionava ficar nem mais um segundo na cama a lamentar-se da sua falta de sorte no amor.

Afinal, todos os dias eram bons para encontrar a nossa alma gémea.

Enquanto se vestia, ouviu o som de uma notificação no seu telemóvel. Agarrou nele. Era um lembrete para visitar a nova loja que abria nesse dia no centro da cidade.

Entusiasmada, acabou de se preparar, agarrou numa peça de fruta para comer pelo caminho e saiu de casa. Queria ser a primeira a chegar.

Pelo caminho, sorriu a todas as pessoas com quem se cruzou. Sentia no ar uma sensação de bom augúrio.

Não foi a primeira a chegar à loja, mas isso acabou por não ter importância. No momento em que se aproximou da montra para espreitar para o interior, todos os fracassos da sua vida desapareceram.

A sua barriga deu um salto. Sentiu um arrepio percorrê-la. Só podiam ser as tais borboletas.

Encontrara-o. O tal. Tinha a certeza, apesar de ainda não o conhecer.

Aproximou-se da porta, sem nunca desviar os olhos dele, e deu o primeiro passo.

Assim que entrou, ele fitou-a. Oh meu Deus, ele tinha o nariz mais amoroso que vira em toda a sua vida! E os olhos, tão vivos que pareciam sorrir! Ok, era um bocado peludo e talvez um pouco magro demais, mas o amor não se importa com o aspeto físico.

O amor sente-se.

Acabara de encontrar a sua alma gémea.

Sorriu, maravilhada.

Ia adotar aquele cãozinho.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.2 | O cadáver


Tema: É que isso de médicos, nunca fiando

          O cadáver

Se havia coisa de que a Doutora Lara se orgulhava era do seu trabalho. Vivia para compreender a morte e ajudar aqueles que não se podiam defender.

Aproximou-se do corpo que repousava na mesa de metal. Levantou respeitosamente a cobertura e dobrou-a para baixo até à zona da cintura.

Observou o corpo que tinha diante de si. Tratava-se de um jovem que não teria mais de 25 anos. Sentiu-se invadida por uma tristeza profunda. Não havia autópsias mais fáceis do que outras, mas era tão errado ter naquela mesa um jovem com a vida toda pela frente.

Através de uma rápida análise ao corpo, percebeu que não havia feridas visíveis. O jovem era muito bem-parecido e o corpo musculado indicava uma prática regular de exercício físico.

Segurou o bisturi na mão direita e, com segurança, aproximou a ponta afiada do peito do jovem.

― O que está a fazer?

A voz esganiçada assustou-a. Parou de imediato e voltou-se para trás. O seu assistente teria certamente chegado da pausa matinal.

Contudo, não havia ninguém na sala. Afastou-se da mesa de autópsia e deu uns passos em frente, apenas para constatar que ninguém entrara ali.

Sentiu um arrepio mesmo antes de se virar.

Nunca, em toda a sua vida profissional, assistira a um momento daqueles.

Atrás de si, o cadáver levantava-se da mesa, levando a mão direita ao cabelo para o compor, como se o facto de ter estado deitado tivesse arruinado a disposição dos seus cabelos castanhos.

― Oh meu Deus! ― A voz de Lara quase não se ouvia. ― Você está vivo!

― Vivo e de boa saúde.

Lara olhava-o estupefacta. Ele caminhava em direção a si. Ainda por cima todo nu!

― O que é que se passa?

― Isso pergunto eu. Você ia espetar-me um bisturi!

Ela quase gritou.

― Era suposto você estar morto!

Ele aproximava-se cada vez mais, parecendo procurar algo.

― O Rogério não tinha mencionado bisturis ― disse, enquanto agarrava um par de calças.

Como raio é que aquela roupa apareceu ali?, perguntou-se Lara.

― Desculpe? O que é que o Doutor Rogério tem a ver com isto?

Sentia agora a indignação a apoderar-se de si. Não podia ser coisa boa se vinha da parte do seu novo namorado, um cardiologista com pouca preocupação pela saúde das pessoas, uma vez que estava sempre a tentar provocar ataques cardíacos a toda a gente. Aquele médico não era de fiar.

― Ele queria fazer-lhe uma surpresa ― respondeu o jovem, já completamente vestido. Tirou um envelope do bolso e entregou-lho. ― Pediu que lhe entregasse esta mensagem.

Virou costas e foi-se embora, como se os últimos vinte minutos nunca tivessem acontecido.

Irritada, Lara abriu o envelope e leu a mensagem.

Olá querida! Feliz aniversário! Jantas comigo logo à noite? 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.1 | O salto


Tema: Acho que a coisa não vai correr bem

          O salto

Estou aterrorizada.

Olho para baixo, por cima das grades de metal, e tento calcular a distância entre os meus pés e a água salgada. Diria que serão mais de quarenta metros mas não consigo precisar.

Do local onde me encontro, a água revela-se demasiado escura, embora se veja um leve brilho provocado pelo embate dos raios solares.

Nunca o rio me pareceu tão intimidador. Mas, para ser sincera, também é a primeira vez que o fito deste exato local, enquanto pondero atirar-me da ponte.

Todo o meu corpo treme. As minhas mãos estão pegajosas e suadas. Os meus joelhos fraquejam. O sangue corre depressa demais pelas minhas veias.

Não sei o que me passou pela cabeça para me desafiar a fazer bungee jumping. Na verdade, quando redigi a lista das “dez coisas a fazer antes de morrer”, nunca pensei que chegasse tão depressa ao último item. Acreditei que simplesmente não teria tempo. É pessimista pensar desta forma, eu sei, mas esta lista foi a primeira coisa que escrevi assim que cheguei ao carro, depois do médico me dar o diagnóstico que ninguém quer ouvir.

Agora, volvidos quase dois anos, acho que toda aquela quimioterapia me fritou o cérebro.

Sinto agitação à minha volta. Oiço alguém dizer que está tudo pronto. Olho por mim abaixo. Vejo um emaranhado de cordas. Um arnês rodeia-me a cintura. O capacete pesa-me na cabeça. Estou pronta para a guerra.

Acho que a coisa não vai correr bem, penso. Mas depois apercebo-me de que devo ter falado em voz alta, porque a mão do meu namorado agarra a minha e oiço a voz dele a sussurrar-me ao ouvido.

— Vai correr tudo bem! É o último item da tua lista.

Ele está claramente mais animado do que eu. Nunca viu esta lista como algo fatalista, mas sim como um conjunto de objetivos em que nos podíamos concentrar durante o combate à doença.

Dou alguns passos em frente, percorrendo a plataforma de madeira que me dá acesso à aventura. Sinto a adrenalina a envolver-me. E finalmente salto…


Acordo suavemente e olho para o relógio. Nove horas. Todos os dias acordo à mesma hora. E todos os dias pego na fotografia com as minhas mãos enrugadas, olho para o meu rosto jovem e feliz e recordo aquele dia longínquo em que dei o salto.

Sorrio porque sobrevivi.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Pré-desafio de Escrita dos Pássaros


Pré-desafio: Contem-nos as razões que vos levaram a inscrever no desafio de escrita dos pássaros e o que dele esperam.

Os pássaros aproximam-se. Os seus chilreios ainda são suaves, mas consigo ouvi-los do lado de fora da janela, enquanto escrevo estas palavras.

Vou participar num desafio de escrita.

Acompanhei a primeira edição do Desafio dos Pássaros porque uma amiga minha participou. Todas as semanas visitava o blogue dela para conhecer mais uma história. Achava engraçado ver como ela interpretava cada temática, dando asas à sua imaginação. Sempre que sentia necessidade de acalmar a minha curiosidade, colocava-lhe perguntas acerca do desafio. A cada semana que passava, via-a mais entusiasmada e comprometida com esta aventura.

De certa forma, esse entusiasmo acabou por me contagiar e dei comigo a inscrever-me na segunda edição do Desafio. Agora que ele está prestes a ter início, cresce a vontade de conhecer a primeira temática.

Os pássaros aproximam-se. Desvio a cortina e observo, cada vez mais perto, uma massa com contornos coloridos. São dezenas e dezenas de pássaros. E voam todos na minha direção.

Aceitei este desafio porque preciso de um exercício diferente e original que me permita voltar à escrita. Após vários meses sem escrever de forma regular, sinto-me mais enferrujada, menos paciente, menos criativa. Afinal de contas, a escrita é como um músculo, precisa de ser treinada todos os dias para se tornar forte.

Espero que este desafio me ajude também a treinar a minha capacidade de síntese. Os nossos textos não devem ultrapassar as quatrocentas palavras, o que é um problema para mim. Quando me entusiasmo com a escrita, não consigo respeitar limites. Recordo-me de quando participei num concurso para uma antologia, em que o limite máximo era de dez mil palavras. Recostei-me, despreocupada, na cadeira, e desatei a escrever, pensando que não havia razões para me preocupar. Assim que redigi a palavra fim, deparei-me com quase quinhentas palavras a mais. O limite não podia ser ultrapassado; não queria correr o risco de ver a minha participação excluída por esse motivo, por isso tive de cortar aqui e ali, até o número de palavras ser aceitável.

São estas as razões que me levam a querer participar. Acredito que será algo bem desafiante!

Os pássaros aproximam-se. Os seus chilreios são agora mais ruidosos. Curiosamente, o barulho não me parece ensurdecedor. Estou preparada. Abro a janela e deixo-os entrar.