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terça-feira, 27 de abril de 2021

"Distância de Segurança" de Samanta Schweblin [Opinião]


«Schweblin dá-nos uma lição de mestre acerca de medo e suspense.»
The Economist
 
Estranho. É a primeira palavra que me ocorre para caracterizar este livro.
A segunda é intrigante.
E posso também afirmar com segurança que, assim que li a última página, fiquei a sentir que não tinha percebido rigorosamente nada do que acabara de ler.

Distância de Segurança é uma novela (tem apenas 120 páginas) com um enredo simples, mas com uma certa dose de complexidade. Trata-se de uma conversa entre Amanda (uma mulher que estará às portas da morte no hospital) e um menino chamado David. Há outras duas personagens com papel relevante que entram na história: a filha de Amanda e a mãe de David.

O que achei curioso é que este livro oferece uma leitura completamente viciante, com uma tensão que não dá descanso. É como se uma força invisível nos prendesse a estas páginas. Não sei se terá sido devido a toda a estranheza da história, mas a verdade é que não sosseguei até chegar ao fim. Comecei este livro num domingo à tarde, lendo cerca de metade, e nessa mesma noite ao ir deitar-me retomei a leitura e só parei na última página. 

[Fotografia da minha autoria]

A narrativa contém alguns aspetos que se podem inserir no paranormal. Há uma espécie de pesticidas que estão a afetar pessoas e animais e surge uma mulher com uma "cura" quando um menino fica gravemente doente.

O seu título em inglês é Fever Dream, e essa foi a primeira interpretação que fiz da história: talvez tudo não passe de um sonho febril, em que os acontecimentos nos parecem irreais e confusos, tal como os sonhos por vezes são.

A história, contudo, fala-nos de relações entre mães e filhos, de como por vezes as mães podem ser extremamente zelosas com as suas crianças. Mas serão capazes de controlar tudo ao seu redor e proteger os filhos de todos os perigos?

Devido a toda a estranheza, este é um livro que merece uma releitura, algo que pretendo fazer dentro de algum tempo, na esperança de ser capaz de compreender melhor a história.

Já leste este livro? Terei muito gosto em conhecer a tua interpretação. Partilha comigo!

Classificação: 4/5 estrelas

sábado, 16 de janeiro de 2021

"Kentukis" de Samanta Schweblin [Opinião]


«O genial não é o que Schweblin diz, mas, antes, o modo como o diz. A sua estrutura tão enigmática e disciplinada parece colocar este livro num novo género literário.»
The New Yorker

Kentukis foi o livro que comprei no Natal por sugestão dos meus seguidores do Instagram. Em vez de fazer um sorteio com as várias sugestões que recebi, decidi analisar todos os livros e escolher aquele que me pareceu mais estranho, aquele livro que provavelmente eu nunca compraria. E foi assim que chegou cá a casa este trabalho de Samanta Schweblin, uma autora que eu desconhecia por completo.

Kentukis apresenta uma temática bem original e que me cativou desde o momento em que procurei algumas opiniões, de forma a conhecer um pouco melhor o livro.

Os kentukis são a mais recente invenção tecnológica. Tratam-se de peluches com a forma dos mais diversos animais, e incluem uma câmara incorporada nos olhos. Cada kentuki é manobrado por um utilizador, em qualquer parte do mundo.
Assim, existem duas opções: podes ter um kentuki, o que significa que tens um bonequinho a andar pela tua casa e a mostrar a alguém tudo o que lhe permites ver; ou podes "ser" um kentuki, e neste caso compras um tablet com uma conexão e passas a controlar o kentuki de outra pessoa e a ver tudo através da sua câmara.

[Fotografia da minha autoria]

É um livro que se lê muito bem, mas que apetece ler devagar, saborear cada uma das diferentes histórias. A escrita de Samanta é bonita, muito certinha e cativante; consegue na perfeição transportar-nos para dentro destas páginas.

O livro apresenta várias histórias. Algumas decorrem num único capítulo e vão surgindo em paralelo com histórias mais longas. Assim, conhecemos diversas personagens, todas com uma experiência diferente com os seus kentukis.
As histórias não se interligam, nenhuma personagem se cruza com outra. Eu caracterizaria este livro como um livro de contos, alguns curtos, outros longos, mas todos abordando a mesma temática.

Kentukis faz-nos pensar na forma como utilizamos a tecnologia. A verdade é que ela está muito presente nas nossas vidas e o que decidimos partilhar e tornar público depende inteiramente de nós. Contudo, estaremos realmente conscientes dos perigos a que nos estamos a expor quando partilhamos a nossa vida privada?

E será que preferimos observar ou ser observados? Quantas vezes não nos dá um certo prazer espreitar as vidas dos outros? Mas teremos noção de que esse comportamento poderá deixar-nos deprimidos, ao acreditarmos que a vida do outro é melhor do que a nossa? Se pensarmos bem, temos tendência a partilhar sobretudo as coisas boas que nos acontecem e esconder as reais dificuldades que vivenciamos.

Ao terem um kentuki, as personagens estão a abrir a sua casa, a sua intimidade, a um estranho. Em algumas histórias, as personagens tentavam estabelecer contacto com o seu kentuki, por exemplo, trocando e-mails. No entanto, se lhe fizessem perguntas, como poderiam ter a certeza de que as respostas eram sinceras? Como poderiam saber se as intenções da pessoa eram boas ou más?

No final, quase todas as histórias terminam com comportamentos mais desajustados por parte das personagens. Algumas acabaram por sentir terror com a sua experiência, outras sentiam que estavam a dar em doidas, outras estavam já completamente obcecadas...

Fiquei muito contente por ter conhecido esta autora e pela oportunidade de conhecer um livro tão original. Não digo que tenha sido a melhor leitura da minha vida, mas será certamente uma história que irei recordar.
Recomendo vivamente a sua leitura! Consegui despertar a tua curiosidade?

Classificação: 4/5 estrelas

sábado, 9 de maio de 2020

"Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich [Opinião]


«A sua técnica é uma mistura vigorosa de eloquência e de silêncio, descrevendo a incompetência, o heroísmo e o luto: a partir dos monólogos dos seus entrevistados, cria uma história que o leitor consegue de facto palpar.»
The Telegraph

Vozes de Chernobyl chegou à minhas mãos ainda antes do início da pandemia em Portugal e acabou por se revelar uma leitura bastante difícil para ler em tempos de Covid-19.

Svetlana Alexievich ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2015 e afirma-se que criou um novo género literário que é inteiramente seu: os «romances de vozes». O seu trabalho consiste em realizar centenas de entrevistas e depois trabalhá-las, organizá-las num fio narrativo, oferecendo-nos uma história com alma.

Vi no ano passado a série Chernobyl, da HBO, e fiquei com imensa curiosidade de ler algo sobre esta tragédia que eu não conhecia assim tão bem.

O livro de Svetlana Alexievich é extremamente rico em testemunhos e igualmente doloroso de ler. Um texto neste formato, composto por entrevistas e monólogos, já de si não é fácil de ler. Tratando de um tema sensível como este, ganha uma dimensão muito maior.

Precisei de intercalar esta leitura com outros livros pois senti que era demasiada informação e necessitei de muitas pausas para digerir o que estava a ler.

[Fotografia da minha autoria] 

O livro está muito bem estruturado. Inicia-se com uma pequena introdução histórica e depois dá lugar a uma solitária voz humana: o testemunho da mulher do bombeiro Ignatenko. Esta história de amor e de perda destroçou-me o coração.
Seguidamente, o livro encontra-se dividido em três capítulos e, o que achei mais interessante é que todos terminam com um Coro, ou seja, o Coro dos Soldados, o Coro Popular e o Coro das Crianças, todos agrupando diversos testemunhos.
Por fim, termina um outra solitária voz humana, desta vez o testemunho de Valentina, mulher de um liquidador.

Como referi mais acima, acabei por ler este livro durante as piores semanas da pandemia em Portugal e não consegui deixar de encontrar algumas semelhanças de certa forma assustadoras. Algumas partes fizeram-me lembrar a irresponsabilidade das pessoas, o facto de ser mais difícil convencer os idosos a aderir à mudança, o medo de ver pessoas.
Foram dias e semanas em que poderíamos não estar tão bem a nível psicológico, daí ter considerado este livro um verdadeiro desafio.

A história do desastre nuclear de Chernobyl é arrepiante, terrível e monstruosa. Mas é importante ler sobre ela pois faz parte da história mundial. Um livro soberbo e impactante que deveria ser lido por todos!

Classificação: 5/5 estrelas